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A floresta em pé e seus frutos

Do estudo científico, para o manejo sustentável de recursos naturais e a conservação, até chegar ao turismo. A Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós, localizada no oeste do estado do Pará, é um modelo de sucesso de Unidade de Conservação, referência no Brasil.

Entre os 527 mil hectares de floresta amazônica protegida pela FLONA, estão comunidades ribeirinhas envolvidas com o trabalho de base comunitária e indígenas do povo munduruku, que lutam pela legitimação de suas terras. Por enquanto, as três comunidades indígenas pertencem territorialmente a FLONA do Tapajós, assim que sancionada como Terra Indígena (TI) será uma área sobreposta a FLONA. A convivência entre os povos é respeitosa, os ribeirinhos levam os traços e histórias do povo mundukuru nos seus corpos. Eles respeitam o espaço e o modo de vida dos indígenas, que não trabalham com extração de recurso natural para fins comerciais.

Dentro de toda unidade de conservação deve haver uma plano de manejo, que é um documento produzido por meio de estudos e diagnósticos do meio físico, social e biológico. O objetivo é garantir a manutenção dos processos ecológicos e a conservação da biodiversidade local. Esse documento estabelece regras e normas para o uso das áreas, do manejo de recursos e prevê ações de cunho educacional, turístico e científico.

IMG_0981Na FLONA do Tapajós, o Plano de Manejo é gerido e está em processo de reformulação pela própria comunidade. Fator que desperta o sentimento de pertencimento pelo meio, cria apoderamento entre as pessoas e aumenta a autoestima de quem vive no lugar. Em 2003, foi criada a Cooperativa Mista Tapajós Verde, que inclui diversos líderes das vinte e cinco comunidades da Flona, e são responsáveis pelo trabalho da extração, tratamento e venda de produtos madeireiros e não madeireiros (óleos, artesanato e o látex). Cabe ao ICMBio, órgão federal, fiscalizar os processos.

“O fato do plano de manejo estar completamente envolvido com a Cooperativa melhorou muito a situação dos ribeirinhos dentro da FLONA, pois trouxe a sustentabilidade para o lugar. Hoje a FLONA tem a venda da sua madeira certificada e está entre as iniciativas mais bem sucedidas de manejo comunitário de recursos naturais em Unidade de Conservação federal ”, comenta Domingos dos Santos Rodrigues, chefe substituto da Floresta Nacional do Tapajós – ICMBio.

Captura de Tela 2016-06-22 às 17.22.42Essa área foi a segunda floresta nacional criada na região do oeste do Pará, ocupando os municípios de Belterra, Aveiro, Placas e Ruropólis, e está localizada entre o rio Tapajós e a BR-163 . Hoje, em todo o país, existem 75 unidades de conservação caracterizada como FLONA, que seguem as mesmas características de uso sustentável da terra. “É um centro de conservação e referência no estado, a FLONA do Tapajós já catalogou mais de 1500 pesquisas científicas e o seu potencial turístico é crescente”, afirma Domingos.

O rio Tapajós é a entrada principal para conhecer a FLONA. Hoje três comunidades, Jamaraquá, Maguari e São Domingos, estão estruturadas para receber turistas de todo o mundo, vindo principalmente do município de Santarém. Algumas famílias vivem exclusivamente do turismo, é o caso da Dona Nice que esteve por quatro anos à frente da associação dos comunitários da FLONA. Hoje, ela se dedica a receber os visitantes em sua própria casa, oferecendo redário, alimentação e passeios guiados. Na FLONA, o visitante pode fazer trilha pela mata e conhecer uma Samauma com mais de 50 metros de altura, mergulhar nos igarapés ou visitar as comunidades vizinhas, onde são feitos produtos artesanais do látex como bolsas, sapatos, colares e mantas. Porém, o turista deve respeitar algumas regras: não pode fazer fogueira, acampar em barracas, ouvir som alto na beira do igarapé e pernoitar sem um guia local.

“A parceria com o ICMBio é muito importante. Eles nos orientaram e nos capacitaram com temas sobre educação ambiental, turismo sustentável, manejo legal e conservação. Inclusive recebo um bolsa de 300 reais a cada trimestre por colaborar na conservação da floresta. É um incentivo que traz prazer e alegria de preservar o ambiente que a gente vive. Nossa comunidade se desenvolveu muito com o turismo e muitos comunitários entenderam o que é trabalhar de forma sustentável”, conta Dona Nice, mulher guerreira da mata que luta por sua comunidade dentro e fora dela.

Aparentemente a FLONA do Tapajós é um case de sucesso na área ambiental, porém muitos fatores externos ameaçam a conservação. Pelos moradores, a soja é o maior deles, pois toda a área do entorno está dominada por áreas de pasto e soja. A queimada também os preocupam, na época da seca, muitos focos se espalham pela mata. E, recentemente, o rio Tapajós se tornou a nova fronteira dos megaprojetos do governo federal. Há uma previsão de construção de 40 usinas na região amazônica, somente para o Tapajós são previstas cinco barragens. A usina hidroelétrica de São Luiz do Tapajós teve a licença ambiental da obra suspensa pelo o Ibama, apontando a inviabilidade do projeto sob a ótica do componente indígena.

Uma luta que envolve as comunidades tradicionais da região, órgãos públicos e a sociedade civil em defesa de uma das lugares mais conservadas do país.

Salve o Tapajós, salve o povo da floresta!

Barra do Mandira - foto: Isabela Rangel

RESEX do Mandira, um exemplo de comunidade sustentável

O município de Cananéia, localizado no Vale do Ribeira em São Paulo, pode ser considerado um lugar especial por diversos fatores. Historicamente foi a primeira vila do Brasil – sua posição geográfica oferecia conforto e segurança para os colonizadores que anos mais tarde iniciaram ali o ciclo do ouro. Biologicamente, a região possui uma grande diversidade de recursos naturais e hoje detêm o maior estuário preservado do estado de São Paulo. Do ponto de vista econômico tem uma função relevante em relação à pesca e aos serviços ambientais de proteção da linha costeira contra as turbulências marítimas. E, por fim, culturalmente, já que suas terras abrigam um dos principais remanescentes de quilombolas do Brasil.

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Mapa de Cananéia

Outro fator muito interessante, que vem na contramão do crescimento acelerado e irresponsável, é que atualmente Cananéia tem mais de 80% do seu território em áreas protegidas. Em tempos nos quais os discursos se fundamentam no conceito de que as unidades de conservação são responsáveis pelo pouco desenvolvimento da região, apresentamos a Reserva Extrativista (Resex) do Mandira – uma área protegida por lei federal de uso sustentável, que mostra como uma UC pode ser geradora de desenvolvimento local.

Apesar da RESEX ter sido criada no ano de 2002, os esforços relacionados à pesquisa da extração de recursos naturais e ao trabalho de mobilização da comunidade do Mandira começaram na década de 90. A unidade de conservação protege 1.177,80 hectares de mangue, que é formado pela característica geográfica da região onde a água do mar se encontra com a água dos rios – formando a água salobra – e proporciona a ocorrência de extensas áreas de manguezal, um dos ambientes mais ricos e importantes, por ser o grande berçário da vida marinha.

Estuário Barra do Mandira
Estuário Barra do Mandira

Nesse contexto o principal recurso da Mandira é a ostra, um molusco filtrador encontrado nas raízes das árvores do mangue e que se alimenta de nutrientes da água salobra. Na década de 70 a comunidade do Mandira, predominantemente negra, fazia a exploração do recurso de forma ilegal e predatória. As condições de trabalho eram extremamente precárias e eles sofriam com o racismo. Ainda não eram reconhecidos como quilombolas e, por isso, rotulados como uma comunidade negra que trabalhava no mangue. Não havia identidade dos moradores com o lugar, chegando até a sentirem vergonha do serviço desempenhado.

Ostra - foto: Isabela Rangel
Ostras nas raízes das árvores do mangue

Porém, a ideia de trabalho dentro do mangue se transforma com a chegada de um professor chamado Antônio Carlos Diegues, que discutiu o potencial da área para o desenvolvimento local e trouxe parceiros que pudessem ajudar na pesquisa e viabilidade de técnicas para a exploração da atividade. Então, eles perceberam que se a comunidade continuasse a exploração sem nenhum cuidado ou informação a ostra se esgotaria. E propuseram para o líder local, o senhor Chico Mandira, a ideia do manejo sustentável do molusco.

“Em 1995 fizemos pela primeira vez o experimento da construção de um tabuleiro de engorda, doado pelo Instituto de Pesca, no meio do mangue. Então a gente retirava as ostras que alcançavam um tamanho entre 5 a 10 centímetros da raiz do mangue e transportávamos para esse tabuleiro de madeira ou bambu instalado em um lugar plano. Logo a gente percebeu que a ostra do viveiro teve um crescimento mais rápido. A técnica deu certo e até hoje está aí”, explica Chico Mandira.

Chico - foto: Isabela Rangel
Chico Mandira

Vendo o resultado positivo, a comunidade aderiu a técnica. Foi a partir dessa mobilização social e da construção de novos viveiros que as leis sobre a exploração da ostra começaram a serem respeitadas. Um exemplo disso é quando durante o período de 18 de dezembro a 18 de fevereiro, que a ostra entra em fase de reprodução, sua exploração no mangue é proibida. Porém as ostras que estão nos viveiros servem como um estoque, o que permite a continuidade do trabalho, e assim, a comercialização do produto.

Viveiro de ostra - foto: Isabela Rangel
Viveiro de engorda da ostra

Nessa fase a comunidade já estava bastante engajada com a ideia do manejo sustentável, e decidiram criar uma Cooperativa dos Produtores de Ostra do Mandira. Essa foi a melhor estratégia para se fazer o escoamento da produção e assim comercializar o produto de forma justa.

“Nós vivemos durante anos nas mãos de atravessadores. Eles chegavam na comunidade, compravam a dúzia por um preço muito baixo e depois vendia por um valor de 70  a 80% mais caro do que o original. A gente conseguiu eliminar esse serviço ilegal com a cooperativa e a nossa ostra passou a ser valorizada em média de 300%”, conta Chico Mandira.

Diante dessa nova perspectiva, a qualidade de vida e auto-estima da comunidade melhorou muito. Estudos mostram que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Reserva Extrativista do Mandira está acima da média da região.

Em 2002, a comunidade foi reconhecida como quilombola e também foi criada a  Reserva Extrativista do Mandira, a primeira e única RESEX federal do estado de São Paulo. Nesse mesmo ano, o senhor Chico Mandira foi receber em Johannesburgo, na África do Sul, o prêmio Iniciativa Equatorial durante o encontro da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, na Rio +10.

Diante de todos os esforços de colaboradores e da família Mandira, hoje é possível ver um trabalho sustentado da comunidade que ampliou o manejo da ostra para o turismo ecológico – formando guias – para a culinária e o artesanato – revelando artistas e chefs de cozinha que brincam com a ostra montando pratos saborosos. A viagem até a Reserva é muito construtiva e está aberta para todos os interessados. É uma experiência única em conhecer um estuário tão grande e bem preservado no estado de São Paulo.

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Gostaria de agradecer a professora Wanda Maldonado, uma das pesquisadoras que participou da construção da história da Reserva Extrativista do Mandira, e que apresentou esse lugar tão sabiamente aos seus alunos.

“É um ambiente especial, cuidem disso”, Wanda Maldonado.