Arquivo da tag: são paulo

Daniel Caballero

Projeto promete trazer área de conservação para São Paulo

Mais uma vez, aquele naturalista viajante da cidade de São Paulo sai da sua casa, sem rumo, para encontrar os campos de Cerrado que restam. No século XVIII, quando São Paulo ainda era chamada por São Paulo dos Campos de Piratininga, não era difícil encontrar as flores delicadas e coloridas da Lantana ou o Araçá. As crianças dessa época se lambuzavam com a fruta da Guabiroba. O Alecrim do Campo era música para elas, afinal, quem não brincou ao som da cantiga “Alecrim, alecrim dourado que nasce no campo sem ser semeado”?

Daniel Caballero
Daniel Caballero

De fato era um ecossistema equilibrado. Já a viagem pitoresca do naturalista moderno questiona a paisagem durante toda a sua experiência, tentando encontrar o verde no meio do caos urbano. Onde está o nosso Cerrado, cadê o pau-santo, a língua-de-tucano, o morango silvestre? Nos poucos terrenos baldios e em algumas áreas protegidas por leis ambientais na cidade se observam as características de uma zona de transição de vegetação entre a Mata Atlântica e o Cerrado, característica da região.

Essa vegetação composta de uma flora muito rica em espécies diferentes foi a primeira a ser destruída, tanto pela facilidade de construção no terreno, em contraste com as densas florestas vizinhas, como pela falta de ‘beleza natural’. Infelizmente, essas plantas são consideradas mato pelo senso comum e foram sendo esquecidas, comenta Ricardo Cardim – biólogo mestre em Botânica.

Em parceria com a Votorantim, o botânico Ricardo Cardim está desenvolvendo um plano, que pretende resgatar a Mata Atlântica e o Cerrado para São Paulo através de projetos de paisagismo. Isso porque, mais de 90 por cento da vegetação encontrada na cidade tem origem estrangeira. É um contrassenso, sendo o Brasil o país mais rico em biodiversidade.

As principais causas para atual situação são a especulação imobiliária, o desconhecimentos das plantas nativas pela população e a procura por plantas ditas ornamentais. Essas seguem as modas internacionais de paisagismo gerando uma invasão biológica de plantas estrangeiras, que competem por recursos naturais e eliminam as plantas nativas. Segundo a ONU, as plantas invasoras é a maior causa de perda de biodiversidade do mundo.

IMG_7320“Esse problema seríssimo está levando as cidades a serem completamente insustentáveis. A gente vai ter que harmonizar a biodiversidade brasileira, a biodiversidade nativa regional com as cidades… É um caminho sem volta, precisamos apenas começar esse caminho. E baseado nisso a gente foi contratado para fazer uma consultoria para a Reserva Votorantim Legado das Águas, a fim de identificar as espécies com potencial ornamental da mata atlântica”, explica Cardim. Ele acredita que o paisagismo além de ser bonito deve ter função ecossistêmica, atuando como parte de uma vegetação natural.

A Reserva Votorantim Legado das Águas está localizada no Vale do Ribeira, sul do Estado de São Paulo, e atualmente preserva uma área de 31 mil hectares. Ela faz parte do maior contínuo de Mata Atlântica do país. Em linha reta, a reserva está a 60 quilômetros de distancia da cidade de São Paulo e tem a mesma altitude. A proximidade geográfica dos locais gera uma grande vantagem para o trabalho em questão. A Legado da Águas é semelhante em assinatura genética, em espécies, em composição ao que era a cidade de São Paulo há 400 anos. “Isso é maravilhoso, porque se você quer trazer a vegetação nativa para um lugar quanto mais local, melhor”, explica Ricardo Cardim.

O projeto, que também está sendo desenvolvido junto com a Bioflora e é financiado pela Votorantim, consiste na produção de mudas ornamentais da Mata Atlântica e do Cerrado em um viveiro dentro da Reserva Legado das Águas, que ainda está em fase de experimentação. Porém o objetivo principal do viveiro é o fornecimento de plantas nativas para paisagistas, arquitetos e pessoas que trabalham com verde. Ricardo Cardim explica que o mercado de plantas ornamentais é amador, focado em modas internacionais. E o grande potencial em produzir plantas com qualidade e estética esperado pelo mercado na Reserva Legado das Águas, com o selo de uma planta nativa regional que atende ao equilíbrio ecológico, é a expertise que se deve alcançar ao final do projeto.

“A novidade é que a Reserva Legado das Águas vai resgatar a mata nativa de volta para a cidade de São Paulo. O modo de encantar as pessoas é de elas entenderem que além de comprarem uma planta bonita, estão ajudando a salvar o meio ambiente. Elas estão fazendo da cidade delas um lugar melhor … Então é esse o objetivo, fazer uma conexão com o futuro do que era a cidade antigamente e do que ela é hoje”, finaliza Ricardo Cardim.

Intervenção "As Margens do Rio Pinheiros", em SP

“A arte salva”

Cardumes de traíra e pacu nadavam por um rio de águas claras. Nessa mesma água crianças se divertiam arriscando saltos quase acrobáticos e jovens praticavam o caiaque. Os mais aventureiros saiam em busca de pegadas das onças para contar histórias ou lendas típicas de pescadores .

Hoje esse ambiente deu espaço a segunda via mais movimentada de São Paulo, as margens do Rio Pinheiros foram substituídas por uma longa via expressa. Em média 300.000 veículos circulam por dia (fonte: CET) levando passageiros, que na maioria das vezes, não olham para este evento abandonado pela cidade.

E como mudar a situação? É possível?

O artista plástico Eduardo Srur respondeu a esta pergunta com a frase: – “A arte salva”.

Em parceria com a Oscip Associação Água Claras do Rio Pineiros, Srur montou intervenções artísticas nas pontes, ao longo da margem e também em dois córregos que representam exatamente a descrição do início deste texto.

18set2014---nova-escultura-do-artista-plastico-eduardo-srur-pode-ser-vista-na-ponte-cidade-jardim-acima-do-rio-pinheiros-em-sao-paulo-nesta-quinta-feira-18-o-artista-ja-realizou-outra-intervencao-1411047700825_1920x1080

“O objetivo da intervenção é fazer as pessoas repararem no Rio Pinheiros, criando uma troca de energia com o ambiente e despertando na população a indignação de se ter um rio condenado, onde não é possível navegar, nadar ou pescar. É um espaço morto e não podemos nos acomodar com isso”, comenta Srur.

No total sāo três intervenções artísticas em oito locais ao longo do rio Pinheiros.

TrampolimA primeira é o ‘Trampolim’ está nas pontes Morumbi, Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo, Eusébio Matoso e Cidade Universitária, com manequins realistas contemplando a paisagem sobre trampolins azuis.

“As pessoas tomaram um susto logo que essa instalação foi feita. E eu achei isso ótimo, sai da rotina. Os bombeiros receberam mais de 300 ocorrências com pessoas falando sobre suicídio, quando na verdade suicida é a condição do nosso rio”.

Cena do dia em SP.

A segunda é o ‘Portal’ que sāo duas grandes instalações concebidas com esculturas e alegorias que foram utilizadas em desfiles de escolas de samba de São Paulo, instaladas na foz dos córregos Uberaba – que significa águas cristalinas, e Jaguaré – local onde a onça habita, ambos em guarani.

uberaba1

“Não são tão portais, mas lápides que a cidade enterrou”, explica Srur da ideia que teve depois de ver a obra instalada.

oncariopinheiros03bebeaguaE a terceira é a ‘Hora da Onça Beber Água’ faz alusão a um dos principais símbolos da fauna brasileira, em risco de extinção, representados por infláveis gigantes colocados na frente da estação Pinheiros do trem.

“A ampliação da mensagem está sendo dada”, finaliza o artista plástico.

o-EDUARDO-SRUR-RIO-PINHEIROS-facebook

A exposição de Eduardo Srur fica até o dia 5 de novembro, mas com a possibilidade de se estender para o final do ano. Esperamos que as pessoas se sensibilize com a causa, protejam o rio e criem uma identidade com o ambiente, fundamental para a construção de uma consciência individual sobre o lugar.