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As engenheiras do mar e o equilíbrio da vida

As tartarugas marinhas são animais que habitam, preferencialmente, os mares tropicais e subtropicais do nosso Planeta. Estima-se que elas existem há mais de 180 milhões de anos. Porém nos dias atuais apenas sete espécies sobreviveram, são elas: a tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricate), tartaruga-lora ou oliva (Lepidochelys olivacea), tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), tartaruga de Kemp (Lepidochelys kempii) tartaruga kikila (Natator depressus).

É fundamental a importância ecológica das tartarugas marinhas. Mesmo passando a maior parte do tempo em água e, por isso, são essenciais no equilíbrio da cadeia alimentar marinha como no controle da população de esponjas, medusas e algas, elas também exercem influencia na alimentação de animais terrestres e aves.

Falcões, gaivotas e fragatas se alimentam das recém-nascidas tartaruguinhas que caminham da praia para o mar logo que nascem. Para as raposas, quatis e lagartos os ovos das tartarugas são parte do cardápio. Isso porque as tartarugas, durante a temporada de nidificação, saem do mar e chegam nas praias para desovarem. Em uma única temporada, algumas espécies, como a tartaruga-de-pente, podem desovar até oito vezes.

Diversos lugares do mundo preservam suas praias e criam projetos pensando na conservação das diferentes espécies de tartarugas marinhas. Hoje seis, das sete que existem, estão catalogadas como “em perigo” ou vulneráveis” à extinção na lista da UICN – União Mundial para a Natureza. As causas para tal situação estão relacionadas com a pesca indiscriminada, a ocupação irregular do litoral, comércio ilegal de carne e ovos e poluição dos mares.

O Blog Guapuruvu conheceu projetos de sucesso, um na Costa Rica e outro no Brasil, que lutam pela conservação das tartarugas marinhas.

Captura de Tela 2015-01-29 às 15.20.44Na Costa Rica o projeto é desenvolvido dentro do Refúgio de Vida Silvestre Camaronal, na região de Guanacaste, onde as tartarugas da espécie lora ou oliva (Lepidochelys olivacea) são a maioria. Elas entram em temporada de nidificação entre os meses de agosto a novembro. O trabalho é apoiado pelo Ministério do Ambiente da Costa Rica e as funções desenvolvidas pela equipe são: a patrulha na praia, principalmente, durante a noite para reduzir o número de roubo dos ovos das tartarugas, pesquisa científica e o monitoramento do animal. A maioria dos ninhos encontrados é transferido para um viveiro construído pelo projeto, assim os ovos são mantidos de forma segura.

Outra curiosidade é que o projeto aceita voluntários para ajudarem no trabalho. Dentre as atividades propostas para os jovens estão a manutenção da sede, limpeza da praia, auxílio na patrulha, organização das informações do trabalho em campo e monitoramento da época de eclosão – quando os bebês nascem. Durante a temporada de nidificação é possível observar uma media de cinquenta tartarugas por noite. Todas elas são anilhadas. As informações sobre tamanho do animal e quantidade de ovos por ninho são coletadas para o monitoramento e pesquisa.

Hoje a tartaruga lora está criticamente em perigo de extinção (IUCN), essa espécie tem a população restrita ao Golfo do México, norte do Oceano Atlântico e Costa Rica, considera-se que apenas mil fêmeas estão em idade reprodutiva (fonte:TAMAR). A praia de Camaronal, onde está localizado o projeto, é a principal área de nidificação solitária da espécie na Costa Rica. Isso porque a tartaruga lora é a única que sai em grupo para desovar – o fenômeno se chama ‘Arribada’ – são mais de 400 tartarugas desovando simultaneamente por noite em pequenas praias do Atlântico.

No Brasil, o projeto TAMAR tem uma grande contribuição e reconhecimento na área. Porém outros projetos são desenvolvidos com excelência ao longo da costa brasileira, é o caso da ONG AMJUS (Associação de Meio Ambiente, Cultura e Justiça Social) localizada na praia de São Miguel do Gosto – Rio Grande do Norte. Uma região potencialmente rica em energia eólica, também é o lugar preferido no Brasil das tartarugas de pente (Eretmochelys imbricata), ameaçadas criticamente à extinção (lista IUCN).

Os monitores ambientais da ONG fiscalizam 25 quilômetros da costa do município durante o período de nidificação da tartaruga, que acontece entre os meses de novembro a junho, além do acompanhamento da eclosão dos ovos. As empresas Voltalia e Copel Renováveis, que estão construindo parques eólicos no município, recentemente apoiaram o projeto de conservação de tartarugas marinhas da ONG. Sem dúvida, foi um ganho. Hoje os dois jovens monitores ambientais, Renny Castro e Acassio Melo que foram voluntários, agora são remunerados e utilizam um quadriciclo para fazer a patrulha, tornando o trabalho mais eficiente. Atualmente o projeto já é referência para as cidades vizinhas, e contribui para as estatísticas do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

A tartaruga de pente é uma mantenedora da biodiversidade nos recifes de corais, pois se alimentam de grupos específicos de esponjas, permitindo que espécies raras se estabeleçam, competindo por espaço e nutrientes com sucesso. Em geral, as tartarugas são consideradas engenheiras do ecossistema pois cada uma delas leva e traz inúmeros nutrientes e energia vital à sobrevivência de outras formas de vida.

Porém ainda há muito o que se descobrir sobre os hábitos e a vida desse animal. Os projetos de conservação comentados nesta reportagem são fundamentais para a produção de pesquisa, coleta de informação e educação ambiental, além da preciosa funcionalidade de colaborar para o aumento da população das tartarugas marinhas.

“Um dia quero que meu filho diga que essa tartaruga aqui existe por causa do meu pai, que trabalhou na AMJUS a 30 anos atrás…” Renny de Castro (20), monitor ambiental da ONG AMJUS desde 2009.

eólica | Foto: Isabela Rangel

O valor do vento no Rio Grande do Norte

Atualmente o Brasil é considerado o décimo país que mais investe em energia limpa no mundo, segundo o relatório internacional “Who is Winning the Clean Energy Race”. Esse termo é bastante usado nos discursos atuais sobre a sustentabilidade energética, mas para que seja sustentável precisamos entender quais são os impactos e vantagens da implantação e operação das energias limpas – aquelas que não emitem gás carbônico na atmosfera – analisando o contexto local onde elas estão inseridas.

As usinas hidroelétricas são a principal matriz energética do Brasil, e sua implantação já foi e ainda é responsável pela mudança de curso de rios, alagamento de florestas e fortes impactos socioambientais em comunidades tradicionais. Uma possível solução para amenizar essas mega-construções seria apostar na diversificação de energias limpas, investindo em parques eólicos, biomassa e usinas solares. E de fato isso já está acontecendo, porém ainda é um assunto pouco divulgado pela mídia e distante dos olhos de uma grande maioria.

eólica | Foto: Isabela RangelO Blog Guapuruvu acompanhou uma audiência pública sobre a implantação de um parque eólico na cidade de São Miguel do Gostoso, Rio Grande do Norte. Segundo o Centro de Estratégias em Recursos Naturais (CERNE), o Rio Grande do Norte é o estado de maior potência eólica instalada no Brasil, ultrapassando a barreira de 1 GW, e as construções de novas usinas não param de crescer.

São Miguel do Gostoso é um lugar conhecido internacionalmente pelos constantes ventos que favorecem a prática de esportes como o Kite Surf e o Wind Surf, e recentemente ganhou atenção de empresas estrangeiras investindo na implantação de parques eólicos, que consiste na conversão da energia mecânica em energia elétrica através do vento.

eólica | Foto: Isabela RangelEm 2008, uma empresa francesa especializada em geração de energia de fontes renováveis iniciou a prospecção da instalação de possíveis parques eólicos no município, e apresentou para o IDEM, (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente), órgão fiscalizador ambiental do governo do Rio Grande do Norte, relatórios de instalação e monitoramento. Esses documentos foram aprovados pelo IDEMA e a licença de instalação foi concedida a partir de um estudo que prevê mitigar a maioria dos impactos da construção civil dessas usinas eólicas.

Outra discussão que permeia a comunidade local, donos de pousadas e a empresa envolvida no projeto é que em 2011 foi aprovada a Lei de Divisas, uma lei municipal que permite a construção do parque eólico a partir da distancia de 1000 metros da praia.  Em 2013, o projeto de implantação da usina foi aprovado pelo IDEMA, respeitando os limites estipulados. Porém, em 2014 a lei sofreu alteração e a construção de aerogeradores devem ser feitos a partir da distância de 2000 metros da praia. O projeto já estava pronto e não pode ser revisado devido aos altos custos que isso geraria. Entretanto, a empresa responsável se propôs a tirar a primeira aeroturbina de um corredor horizontal de dez hélices para que essa distancia seja um pouco maior. Apesar do acordo, a maioria presente na audiência estava insatisfeita com a proximidade do empreendimento da praia.

Em abril deste ano se inicia a construção de 4 parques eólicos, 3 no município de São Miguel do Gostoso e 1 em Touros, cidade vizinha. Em cada parque está prevista a instalação de dez turbinas com capacidade instalada de 120,0MW numa área de 933,13 hectares. A empresa garante promover 750 empregos diretos e 1500 empregos indiretos durante os dois anos da construção civil das eólicas, colaborando com o desenvolvimento de uma cidade predominantemente rural e que vive da política assistencialista do governo federal. No relatório de monitoramento da implantação aprovado pelo IDEMA também está documentado projetos de proteção ao trabalhador, educação ambiental e gerenciamento de resíduos sólidos já que a população vai ganhar mais e consumir mais.

eólica | Foto: Isabela RangelComo se pode perceber há diversos fatores positivos e negativos da implantação das eólicas. O fato é que se houvesse uma política de zoneamento efetiva, muitos desses problemas, como é o caso da distância do primeiro aerogerador da praia, estariam resolvidos. Mas infelizmente o Brasil ainda sofre pela falta de política de legislação de terras e ocupação do espaço, o que afeta diversos setores da economia e da sociedade.  O município de São Miguel do Gostoso enfrenta o desafio de conciliar as usinas eólicas com o turismo e com desenvolvimento local.

Hoje o estado do Rio Grande do Norte já seria autossuficiente em energia eólica, ou seja, não precisaria de mais nenhuma fonte de energia para abastecer a população. Porém essa energia é distribuída pelo Brasil através de linhas de transmissão. Em nível nacional a eólica representa apenas 2% da energia elétrica consumida pelo Brasil. O que se percebe é que deve haver uma mistura de várias fontes que se articulem e se completem, o projeto de São Miguel do Gostoso é um exemplo de responsabilidade social e ambiental.

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O Blog Guapuruvu agradece pela colaboração de Heldene dos Santos, presidente da ONG AMJUS,  que desenvolve um trabalho primoroso de conservação e educação ambiental em São Miguel do Gostoso.