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Tanquã

A luta pela preservação do Tanquã – Pantanal Paulista

O Estado de São Paulo e suas riquezas naturais…. Imagine um lugar onde pássaros de pernas longas tais como tuiuiú, colhereiro e frango d’água azul caminham sobre campos alagados como no Pantanal. Ou, então, neste mesmo lugar onde o voo do gavião-caboclo se harmoniza com delicado rufar de asas do pequeno tricolino. E mais, uma comunidade tradicional que vive da pesca e com a simplicidade característica de um estilo de vida caiçara nas margens do Rio Piracicaba. Esse lugar se chama Tanquã, e está localizado na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo.

Por ambientalistas, amantes da natureza e pela comunidade local o Tanquã é considerado um paraíso ecológico, mas para o crescimento irresponsável ele é apenas um entrave na  ampliação da Hidrovia Tiête–Paraná. Em 2012 o departamento hidroviário propôs construir uma barragem no município de Santa Maria da Serra para tornar o Rio Piracicaba navegável neste trecho. Seriam 45 quilômetros ligando a atual hidrovia até o Porto de Artemisque, e isso acarretaria no Tanquã totalmente alagado, perdendo suas características ecológicas que atraem aves, fomenta a pesca e a economia local, e equilibra um ecossistema praticamente extinto no Estado. 

Além desses fatores de pressão mais um incomoda os amantes do lugar, pois o Tanquã está numa região onde a agropecuária é predominante. Importantes fazendas, como a Fazenda Bacury e a Barreiro Rico, preservam áreas de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado, que juntos com o Tanquã, formam um corredor ecológico onde os ecossistemas se completam. Sempre lembrando que esses corredores ecológicos elevam a qualidade ambiental significativamente, pois criam condições muito mais favoráveis para o desenvolvimento de diversas espécies da fauna e da flora.

Nas últimas semanas o Brasil foi informado que a taxa de desmatamento está aumentando e a Mata Atlântica já perdeu mais de 90% da vegetação original. Como podemos aceitar que um empreendimento estadual, com financiamento federal, pode degradar ainda mais os próprios recursos naturais? Onde está o desenvolvimento sustentável que assegura a qualidade e disponibilidade dos recursos naturais para essa e as futuras gerações? O resultado dessa obra seria apenas para a navegação de 45 quilômetros e acarretaria, como vimos, na destruição de mais um fragmento preservado.  

“Não há a menor possibilidade de compensação adequada nesta área. As compensações propostas são irrelevantes e insuficientes. A proposta é compensar em uma área chamada Curva do Samambaia que tem dimensões muito inferiores ao Tanquã e uma água poluidíssima”, explica Luciano Monferrari – um dos ativistas que luta pela preservação do Tanquã.

Monferrari faz parte do Centro de Estudos Ornitológicos (CEO) que foi responsável pelo levantamento de avifauna do Tanquã. Segundo o relatório que produziram existem 90 espécies associadas ao ambiente aquático, entre elas 16 constam na lista de espécies ameaçadas de extinção. Há também 17 espécies de aves migratórias, sendo 4 provenientes do hemisfério sul e 13 provenientes do hemisfério norte. Em 2011, mais uma vez comprovando sua importância biológica, a região entrou no Censo Neotropical de Aves Aquáticas – no qual os dados são compilados e passados a um órgão internacional para controle desta população. Neste censo foram registradas 26 espécies de aves aquáticas ameaçadas no estado de São Paulo, 02 ameaçadas a nível Nacional e 03 ameaçadas a nível Global.

Toda essa biodiversidade só é possível pela formação caracterizada por lagos rasos na baixa do rio Piracicaba, o que facilita o processo migratório, pois as aves encontram fartura de alimentação, local para pouso, descanso e também para reprodução.

“Quando soube pela mídia a intenção de construir a hidrovia e suas consequências, procurei imediatamente algumas pessoas do CEO. Entramos com uma ação no Ministério Público e foi instaurado um Inquérito Civil, inicialmente para acompanhamento do processo. A defesa do Tanquã ganhou força com as audiências públicas, a participação da sociedade civil, também da presença entidades interessadas e de professores renomados de faculdades que emitiram pareceres muito importantes demonstrando a inviabilidade do empreendimento”, explica Moferrari, citando como começou essa luta.

Em um empreendimento como esse deve existir um estudo de impactos ambientais, pois com a construção da barragem o Tanquã seria eliminado. Um estudo desse tipo já foi feito, contudo vem ignorando todos os dados já registrados de biodiversidade e impacto social na região. Famílias que nasceram no Tanquã serão transferidas para outros locais, e a sensação que fica é como se estivessem realocando coisas em prateleiras. Vidas, identidades e ambientes nunca serão compensados. Os fatores são relevantes e devem ser considerados, além disso a sociedade civil tem o direito de saber o que será feito com cada uma das espécies, ameaçadas ou não de extinção, com cada pessoa que perderá seu espaço de direito,  cada qual com sua história de vida relacionada àquela região, uma vez que são muitas gerações que sempre viveram em harmonia com o ambiente.

Um grande aliado dessa luta são os observadores de pássaros. A atividade de birdwatching vem crescendo muito no Brasil e um dos importantes locais para a observação é o Tanquã.

Tanquã

“Hoje já é um ponto de observação de aves consolidado, com a presença quase que diária de observadores. A própria comunidade local já começa a observar mais as aves e consequentemente protegê-las. Impressionante como surgem novas descobertas de aves à medida que aumenta o número de observadores”, conta Monferrari.

Além da divulgação de informações importantes para estudos ornitológicos, há também o envolvimento dessas pessoas pelo o lugar, como defensores da região. Por isso as ações para a preservação do Tanquã chegam de diversas esferas da sociedade que se interessam pelo assunto. O Avistar, a maior feira do Brasil focada no tema observação de aves, é um exemplo dos grandes disseminadores de temas específicos como este.

Hoje o Ministério Público recomenda a não liberação desta licença para a construção da Barragem sem que atendam a todos os questionamentos da sociedade civil e dos pareceres técnicos apresentados nas audiências.

A luta pelo Tanquã continua. Todas as pessoas envolvidas querem alternativas para essa construção. O desenvolvimento é necessário mas deve ser pensado de forma responsável e que respeite as vidas que dependem daquele lugar.

O que se espera para o futuro é que aves possam chegar e voltar para aquele lugar tranquilamente. Que a saña-amarela e a capororoca, consideradas os primeiros registros para o estado de São Paulo, desafiem os observadores a cada ida. E que a comunidade se beneficie com o turismo de bridwatching e com a preservação dos recursos naturais.

O Tanquã de hoje… É o Tanquã pra sempre!

meliponas

Conheça a história das abelhas nativas do Brasil

Entre as 20 mil espécies de abelhas já registradas no planeta, os meliponíneos são o foco deste post. O Blog Guapuruvu vai apresentar em uma série de reportagens sobre quem são essas abelhas e por que elas sofrem ameaça de extinção.

O termo meliponíneos pode ser entendido como espécies de abelhas nativas que são desprovidas de ferrão – também conhecidas como meliponas. Na verdade, o ferrão é atrofiado mas elas são capazes de se defender usando outras formas.

Mandaçaia - melipona encontrada ao longo da costa atlântica desde o Norte até o Sul
Mandaçaia – melipona encontrada ao longo da costa atlântica desde o Norte até o Sul

Apesar de pouco conhecida pela a população em geral o Brasil sempre teve as abelhas sem ferrão como produtoras de mel. O mel delas foi historicamente usado por muitas tribos indígenas como alimento e remédio, além de ser fonte de energia importante em longas caminhadas na busca por caça. Pelo o que se sabe os índios não criavam, apenas extraíam o mel das colônias.

Iraí -  uma espécie de meliponíneo bastante comum no Brasil
Iraí – uma espécie de meliponíneo bastante comum no Brasil

Por volta do século 18 os jesuítas trouxeram abelhas da Europa do tipo Apis para o Brasil. O objetivo era produzir cera para as velas – afinal eram muitas missas para catequizar as pessoas que viviam neste país. Além das colmeias, trouxeram também o conhecimento de como extrair cera e mel dessa espécie em particular.

 As Apis são se mostraram extremamente bem adaptáveis e conseguiram produzir, colhendo o néctar e o pólen das florestas brasileiras, em larga escala. Foi então que a produção de mel no Brasil começou apenas com abelhas europeias do gênero Apis e usando técnicas também daquele continente.

 Na década de 1950 pesquisadores da Unesp trouxeram para o interior de São Paulo algumas abelhas da África, também do tipo Apis, que tinham bastante produtividade. Operárias e algumas rainhas dessas abelhas escaparam do laboratório e, seguindo seus instintos de formar mais colmeias, cruzaram com outras abelhas do tipo Apis – ou seja, com as abelhas europeias. Desse hibridismo surgiu a abelha Apismelliferas ou africanizada, hoje a principal produtora de mel do Brasil e popularmente conhecida pelo o poderoso ferrão que possui.  

Apis Mellifera
Apis Mellifera

Essa mistura gerou um híbrido extremamente versátil, capaz de buscar alimento em inúmeras variedades de plantas, e de suportar temperaturas muito diferentes. Além disso, boas produtoras de mel, boas polinizadoras, mais resistentes a doenças que as europeias e com alta capacidade de adaptação aos diferentes tipos de ecossistemas brasileiros. Ou seja, as Apismelliferas predominaram no ambiente. E, como elas não reconhecem fronteiras que o homem criou, se espalharam por quase todo o continente americano.

Claro que esse evento trouxe um impacto bastante forte para as abelhas nativas (as sem ferrão), mas não se sabe biologicamente se algumas espécies de meliponíneos foram extintos, ou simplesmente expulsos de seu habitat natural. Lembrando que no século em que as Apisforam trazidas da Europa, ninguém pensava no impacto ambiental que a introdução de uma nova espécie no meio ambiente poderia causar; além das abelhas, foram trazidos também para o Brasil milhares de outros produtos sem essa preocupação, como por exemplo, diversas frutas e até o próprio gado.

Até hoje, toda a produção brasileira de mel para venda está centrada nas abelhas do tipo Apis, ou seja, na apicultura. Sendo assim, todos os dados registrados se referem à apicultura, já que o mel da abelha sem ferrão ainda é produzido artesanalmente e não é regulamentado para a venda. Por exemplo, o fato de o Brasil ser o quinto país do mundo em exportação, ou o décimo primeiro mais importante produtor mundial, ou que triplicou a produção e aumentou em cem vezes a exportação de mel, segundo o Instituto de Economia Agrícola.

 As abelhas sem ferrão são o grupo mais diversificado de abelhas sociais: são mais de 400 espécies conhecidas apenas da Argentina até o México, sem contar as da África, Ásia e parte da Austrália. Cada espécie é um pouco diferente, sendo que a grande maioria das abelhas não são sequer sociais (ou seja, não formam colônias, vivem solitárias como outros insetos). Mas vamos falar principalmente das criadas para produzir mel – e essas são sociais.

Uruçu - abelha melipona encontra no Nordeste e também na região amozônica
Uruçu – abelha melipona encontra no Nordeste e também na região amazônica

Elas são as principais polinizadoras das regiões tropicais. Como formam o ninho em geral em árvores e se alimentam do que tiram das flores, são muito dependentes da preservação da mata onde estão – e precisam ser criadas na região de origem.

A degradação do meio ambiente, principalmente o desmatamento, é a maior ameaça às abelhas. Elas necessitam de um ambiente contínuo para ter mais chance de encontrar outras abelhas da mesma espécie e que não sejam geneticamente parecidas. Por isso, a degradação das florestas – seja para vender madeira, plantar, criar gado ou alagar para uma hidroelétrica, por exemplo – tem impacto enorme na existência desses animais. Se a rainha cruzar apenas com os machos aparentados, a chance de nascerem machos estéreis é maior e a população tende a se extinguir por pobreza genética.

Jataí - melipona encontrada em todo o Brasil
Jataí – melipona encontrada em todo o Brasil

E, diferentemente da Apis, as melíponas não conseguem reconstituir uma colônia quando a sua é destruída, porque a rainha-mãe não consegue mais voar. As Apis formam aquele enxame, voam juntas para outro local e constroem a colmeia novamente. Já a colônia nativa costuma simplesmente morrer se a árvore em que está instalada é retirada.

O raio de atuação de cada colônia é relativamente pequeno, cerca de um quilometro, então elas precisam de um ambiente saudável, com todos os recursos de que necessitam. É um via de mão dupla elas são responsáveis por manter a saúde da natureza com a polinização e a floresta em pé oferece energia e vida para as abelhas melíponas. No próximo post vamos apresentar a importância das abelhas para a vida da floresta.