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Conheça a história das abelhas nativas do Brasil

Entre as 20 mil espécies de abelhas já registradas no planeta, os meliponíneos são o foco deste post. O Blog Guapuruvu vai apresentar em uma série de reportagens sobre quem são essas abelhas e por que elas sofrem ameaça de extinção.

O termo meliponíneos pode ser entendido como espécies de abelhas nativas que são desprovidas de ferrão – também conhecidas como meliponas. Na verdade, o ferrão é atrofiado mas elas são capazes de se defender usando outras formas.

Mandaçaia - melipona encontrada ao longo da costa atlântica desde o Norte até o Sul
Mandaçaia – melipona encontrada ao longo da costa atlântica desde o Norte até o Sul

Apesar de pouco conhecida pela a população em geral o Brasil sempre teve as abelhas sem ferrão como produtoras de mel. O mel delas foi historicamente usado por muitas tribos indígenas como alimento e remédio, além de ser fonte de energia importante em longas caminhadas na busca por caça. Pelo o que se sabe os índios não criavam, apenas extraíam o mel das colônias.

Iraí -  uma espécie de meliponíneo bastante comum no Brasil
Iraí – uma espécie de meliponíneo bastante comum no Brasil

Por volta do século 18 os jesuítas trouxeram abelhas da Europa do tipo Apis para o Brasil. O objetivo era produzir cera para as velas – afinal eram muitas missas para catequizar as pessoas que viviam neste país. Além das colmeias, trouxeram também o conhecimento de como extrair cera e mel dessa espécie em particular.

 As Apis são se mostraram extremamente bem adaptáveis e conseguiram produzir, colhendo o néctar e o pólen das florestas brasileiras, em larga escala. Foi então que a produção de mel no Brasil começou apenas com abelhas europeias do gênero Apis e usando técnicas também daquele continente.

 Na década de 1950 pesquisadores da Unesp trouxeram para o interior de São Paulo algumas abelhas da África, também do tipo Apis, que tinham bastante produtividade. Operárias e algumas rainhas dessas abelhas escaparam do laboratório e, seguindo seus instintos de formar mais colmeias, cruzaram com outras abelhas do tipo Apis – ou seja, com as abelhas europeias. Desse hibridismo surgiu a abelha Apismelliferas ou africanizada, hoje a principal produtora de mel do Brasil e popularmente conhecida pelo o poderoso ferrão que possui.  

Apis Mellifera
Apis Mellifera

Essa mistura gerou um híbrido extremamente versátil, capaz de buscar alimento em inúmeras variedades de plantas, e de suportar temperaturas muito diferentes. Além disso, boas produtoras de mel, boas polinizadoras, mais resistentes a doenças que as europeias e com alta capacidade de adaptação aos diferentes tipos de ecossistemas brasileiros. Ou seja, as Apismelliferas predominaram no ambiente. E, como elas não reconhecem fronteiras que o homem criou, se espalharam por quase todo o continente americano.

Claro que esse evento trouxe um impacto bastante forte para as abelhas nativas (as sem ferrão), mas não se sabe biologicamente se algumas espécies de meliponíneos foram extintos, ou simplesmente expulsos de seu habitat natural. Lembrando que no século em que as Apisforam trazidas da Europa, ninguém pensava no impacto ambiental que a introdução de uma nova espécie no meio ambiente poderia causar; além das abelhas, foram trazidos também para o Brasil milhares de outros produtos sem essa preocupação, como por exemplo, diversas frutas e até o próprio gado.

Até hoje, toda a produção brasileira de mel para venda está centrada nas abelhas do tipo Apis, ou seja, na apicultura. Sendo assim, todos os dados registrados se referem à apicultura, já que o mel da abelha sem ferrão ainda é produzido artesanalmente e não é regulamentado para a venda. Por exemplo, o fato de o Brasil ser o quinto país do mundo em exportação, ou o décimo primeiro mais importante produtor mundial, ou que triplicou a produção e aumentou em cem vezes a exportação de mel, segundo o Instituto de Economia Agrícola.

 As abelhas sem ferrão são o grupo mais diversificado de abelhas sociais: são mais de 400 espécies conhecidas apenas da Argentina até o México, sem contar as da África, Ásia e parte da Austrália. Cada espécie é um pouco diferente, sendo que a grande maioria das abelhas não são sequer sociais (ou seja, não formam colônias, vivem solitárias como outros insetos). Mas vamos falar principalmente das criadas para produzir mel – e essas são sociais.

Uruçu - abelha melipona encontra no Nordeste e também na região amozônica
Uruçu – abelha melipona encontra no Nordeste e também na região amazônica

Elas são as principais polinizadoras das regiões tropicais. Como formam o ninho em geral em árvores e se alimentam do que tiram das flores, são muito dependentes da preservação da mata onde estão – e precisam ser criadas na região de origem.

A degradação do meio ambiente, principalmente o desmatamento, é a maior ameaça às abelhas. Elas necessitam de um ambiente contínuo para ter mais chance de encontrar outras abelhas da mesma espécie e que não sejam geneticamente parecidas. Por isso, a degradação das florestas – seja para vender madeira, plantar, criar gado ou alagar para uma hidroelétrica, por exemplo – tem impacto enorme na existência desses animais. Se a rainha cruzar apenas com os machos aparentados, a chance de nascerem machos estéreis é maior e a população tende a se extinguir por pobreza genética.

Jataí - melipona encontrada em todo o Brasil
Jataí – melipona encontrada em todo o Brasil

E, diferentemente da Apis, as melíponas não conseguem reconstituir uma colônia quando a sua é destruída, porque a rainha-mãe não consegue mais voar. As Apis formam aquele enxame, voam juntas para outro local e constroem a colmeia novamente. Já a colônia nativa costuma simplesmente morrer se a árvore em que está instalada é retirada.

O raio de atuação de cada colônia é relativamente pequeno, cerca de um quilometro, então elas precisam de um ambiente saudável, com todos os recursos de que necessitam. É um via de mão dupla elas são responsáveis por manter a saúde da natureza com a polinização e a floresta em pé oferece energia e vida para as abelhas melíponas. No próximo post vamos apresentar a importância das abelhas para a vida da floresta.