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eólica | Foto: Isabela Rangel

O valor do vento no Rio Grande do Norte

Atualmente o Brasil é considerado o décimo país que mais investe em energia limpa no mundo, segundo o relatório internacional “Who is Winning the Clean Energy Race”. Esse termo é bastante usado nos discursos atuais sobre a sustentabilidade energética, mas para que seja sustentável precisamos entender quais são os impactos e vantagens da implantação e operação das energias limpas – aquelas que não emitem gás carbônico na atmosfera – analisando o contexto local onde elas estão inseridas.

As usinas hidroelétricas são a principal matriz energética do Brasil, e sua implantação já foi e ainda é responsável pela mudança de curso de rios, alagamento de florestas e fortes impactos socioambientais em comunidades tradicionais. Uma possível solução para amenizar essas mega-construções seria apostar na diversificação de energias limpas, investindo em parques eólicos, biomassa e usinas solares. E de fato isso já está acontecendo, porém ainda é um assunto pouco divulgado pela mídia e distante dos olhos de uma grande maioria.

eólica | Foto: Isabela RangelO Blog Guapuruvu acompanhou uma audiência pública sobre a implantação de um parque eólico na cidade de São Miguel do Gostoso, Rio Grande do Norte. Segundo o Centro de Estratégias em Recursos Naturais (CERNE), o Rio Grande do Norte é o estado de maior potência eólica instalada no Brasil, ultrapassando a barreira de 1 GW, e as construções de novas usinas não param de crescer.

São Miguel do Gostoso é um lugar conhecido internacionalmente pelos constantes ventos que favorecem a prática de esportes como o Kite Surf e o Wind Surf, e recentemente ganhou atenção de empresas estrangeiras investindo na implantação de parques eólicos, que consiste na conversão da energia mecânica em energia elétrica através do vento.

eólica | Foto: Isabela RangelEm 2008, uma empresa francesa especializada em geração de energia de fontes renováveis iniciou a prospecção da instalação de possíveis parques eólicos no município, e apresentou para o IDEM, (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente), órgão fiscalizador ambiental do governo do Rio Grande do Norte, relatórios de instalação e monitoramento. Esses documentos foram aprovados pelo IDEMA e a licença de instalação foi concedida a partir de um estudo que prevê mitigar a maioria dos impactos da construção civil dessas usinas eólicas.

Outra discussão que permeia a comunidade local, donos de pousadas e a empresa envolvida no projeto é que em 2011 foi aprovada a Lei de Divisas, uma lei municipal que permite a construção do parque eólico a partir da distancia de 1000 metros da praia.  Em 2013, o projeto de implantação da usina foi aprovado pelo IDEMA, respeitando os limites estipulados. Porém, em 2014 a lei sofreu alteração e a construção de aerogeradores devem ser feitos a partir da distância de 2000 metros da praia. O projeto já estava pronto e não pode ser revisado devido aos altos custos que isso geraria. Entretanto, a empresa responsável se propôs a tirar a primeira aeroturbina de um corredor horizontal de dez hélices para que essa distancia seja um pouco maior. Apesar do acordo, a maioria presente na audiência estava insatisfeita com a proximidade do empreendimento da praia.

Em abril deste ano se inicia a construção de 4 parques eólicos, 3 no município de São Miguel do Gostoso e 1 em Touros, cidade vizinha. Em cada parque está prevista a instalação de dez turbinas com capacidade instalada de 120,0MW numa área de 933,13 hectares. A empresa garante promover 750 empregos diretos e 1500 empregos indiretos durante os dois anos da construção civil das eólicas, colaborando com o desenvolvimento de uma cidade predominantemente rural e que vive da política assistencialista do governo federal. No relatório de monitoramento da implantação aprovado pelo IDEMA também está documentado projetos de proteção ao trabalhador, educação ambiental e gerenciamento de resíduos sólidos já que a população vai ganhar mais e consumir mais.

eólica | Foto: Isabela RangelComo se pode perceber há diversos fatores positivos e negativos da implantação das eólicas. O fato é que se houvesse uma política de zoneamento efetiva, muitos desses problemas, como é o caso da distância do primeiro aerogerador da praia, estariam resolvidos. Mas infelizmente o Brasil ainda sofre pela falta de política de legislação de terras e ocupação do espaço, o que afeta diversos setores da economia e da sociedade.  O município de São Miguel do Gostoso enfrenta o desafio de conciliar as usinas eólicas com o turismo e com desenvolvimento local.

Hoje o estado do Rio Grande do Norte já seria autossuficiente em energia eólica, ou seja, não precisaria de mais nenhuma fonte de energia para abastecer a população. Porém essa energia é distribuída pelo Brasil através de linhas de transmissão. Em nível nacional a eólica representa apenas 2% da energia elétrica consumida pelo Brasil. O que se percebe é que deve haver uma mistura de várias fontes que se articulem e se completem, o projeto de São Miguel do Gostoso é um exemplo de responsabilidade social e ambiental.

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O Blog Guapuruvu agradece pela colaboração de Heldene dos Santos, presidente da ONG AMJUS,  que desenvolve um trabalho primoroso de conservação e educação ambiental em São Miguel do Gostoso.

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Bituca é no lixo

Todos os dias recebemos informações sobre os danos do cigarro à saúde, mas você tem ideia de quanto o cigarro prejudica também o meio ambiente? O descarte incorreto dos filtros tem sido muito discutido durante as estratégias de reciclagem do lixo, já que ele polui as ruas, entope bueiros, chega aos rios e aos mares. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o número estimado de fumantes no mundo é de 1,6 bilhão. De acordo com informações da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), em média são descartadas por dia 12,3 bilhões de bitucas.

 O Blog Guapuruvu bateu um papo com o Rafael Henrique Rodrigues, presidente do Instituto S.O.S. – ONG responsável pela gestão da Rede Papel Bituca, sobre as estratégias para a solução do descarte deste lixo.

Qual é o panorama do descarte de bitucas em São Paulo atualmente?

Rafael Henrique  – A grande São Paulo possui cerca de 19 milhões de habitantes e estima-se que os fumantes que circulam no município dispensam em suas ruas 34 milhões de bitucas de cigarro por dia, o que é suficiente para encher um apartamento de 70m².

 Quais são os impactos ambientais do descarte incorreto dos filtros de cigarro?

Rafael Henrique – De acordo com instituições como a Ocean Conservancy e Cigarette Litter, a bituca de cigarro é o lixo mais comum do mundo, levando de dois a cinco anos para se decompor. Enquanto ficam na natureza, continuam a eliminar as substâncias tóxicas presentes no cigarro e em seu filtro. São mais de 4,7 mil substâncias tóxicas que prejudicam o solo, contaminam rios e córregos e entopem tubulações e bueiros. As bitucas também causam a morte de animais. Outro dado vincula a bituca ao problema das queimadas. Segundo informações do Governo do Estado de São Paulo, entre as estações secas, a bituca de cigarro é uma das principais causadoras de incêndios.

A bituca contém materiais que podem ser reciclados? Qual é o destino desses filtros na cadeia do lixo?

Rafael Henrique – A bituca pode ser inteiramente reciclada, principalmente a parte dos filtros (que têm 95% de acetato de celulose). O Laboratório de Papel Artesanal da Universidade de Brasília (UnB) é criador do papel feito de bitucas de cigarro, atuando hoje na pesquisa e desenvolvimento para melhoria contínua do mesmo. Hoje é responsável pela multiplicação da técnica por meio da capacitação dos polos de transformação das bitucas em papel.

E quais são os mecanismos viáveis para a conscientização da população?

Rafael Henrique – A Rede Papel Bituca se propõe a conscientizar a população mostrando a dimensão do problema mas, além disso, mostrando que existe uma solução viável para ele. Usa como instrumento de conscientização a transformação das bitucas de cigarro em papel artesanal, que depois é usado para fabricar artigos ecológicos que geram inclusão social e renda. Na rede, ONGs e Empresas Sociais trabalham em colaboração para a prestação deste serviço.

O que é a Rede Papel Bituca?

Rafael Henrique – A Rede Papel Bituca é uma iniciativa do Instituto S.O.S. que, unindo ONGs e Empresas Sociais, procura minimizar os prejuízos ambientais gerados pelas bitucas de cigarro. Enquanto existirem pessoas que fazem a escolha de fumar, é preciso que alguém as conscientize sobre os impactos do descarte incorreto do resíduo. A Rede também recebe pedidos de empresas, estabelecimentos comerciais e eventos que queiram ser atendidos pelo “Programa de Conscientização dos Impactos Ambientais das Bitucas de Cigarro”. O serviço inclui fornecimento de peças de educação ambiental, retirada das bitucas e correta destinação das mesmas, certificado em formato digital e inclusão da empresa no site da Rede Papel Bituca como participante do programa.

 A Rede Papel Bituca criou uma campanha sobre o tema. Qual foi?

Rafael Henrique – O vídeo “Não existe lixo pequeno” traz um olhar inusitado para a questão, de forma leve e descontraída, com o objetivo de alertar a população sobre o real tamanho deste problema, além de divulgar os serviços prestados pela Rede. Decidimos fazer este vídeo em São Paulo para ser um viral de conscientização. A ação contou com diversos voluntários, desde a fabricação das bitucas gigantes até a captação e edição de imagens.

*Assista ao vídeo no final do post.

 A Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio de São Paulo aprovou no mês passado a proposta que proíbe o descarte de filtros de cigarros em vias públicas. Essa lei é uma aliada na campanha?

Rafael Henrique – Na verdade a atuação da Rede Papel Bituca é que será uma aliada da lei. As ações por nós promovidas já visam a conscientização dos fumantes quanto aos problemas que o descarte indevido deste resíduo trás para a sociedade como um todo. Desta maneira, nossa atuação é sinérgica e complementar à implantação da lei a qual será importante para que as empresas passem a aderir à coleta e ao descarte correto do resíduo que é gerado pelos seus frequentadores.

Agora assista ao vídeo “Não exite lixo Pequeno”, produzido pela Rede Papel Bituca