Arquivo da tag: Floresta Nacional do Tapajós

IMG_0807

A floresta em pé e seus frutos

Do estudo científico, para o manejo sustentável de recursos naturais e a conservação, até chegar ao turismo. A Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós, localizada no oeste do estado do Pará, é um modelo de sucesso de Unidade de Conservação, referência no Brasil.

Entre os 527 mil hectares de floresta amazônica protegida pela FLONA, estão comunidades ribeirinhas envolvidas com o trabalho de base comunitária e indígenas do povo munduruku, que lutam pela legitimação de suas terras. Por enquanto, as três comunidades indígenas pertencem territorialmente a FLONA do Tapajós, assim que sancionada como Terra Indígena (TI) será uma área sobreposta a FLONA. A convivência entre os povos é respeitosa, os ribeirinhos levam os traços e histórias do povo mundukuru nos seus corpos. Eles respeitam o espaço e o modo de vida dos indígenas, que não trabalham com extração de recurso natural para fins comerciais.

Dentro de toda unidade de conservação deve haver uma plano de manejo, que é um documento produzido por meio de estudos e diagnósticos do meio físico, social e biológico. O objetivo é garantir a manutenção dos processos ecológicos e a conservação da biodiversidade local. Esse documento estabelece regras e normas para o uso das áreas, do manejo de recursos e prevê ações de cunho educacional, turístico e científico.

IMG_0981Na FLONA do Tapajós, o Plano de Manejo é gerido e está em processo de reformulação pela própria comunidade. Fator que desperta o sentimento de pertencimento pelo meio, cria apoderamento entre as pessoas e aumenta a autoestima de quem vive no lugar. Em 2003, foi criada a Cooperativa Mista Tapajós Verde, que inclui diversos líderes das vinte e cinco comunidades da Flona, e são responsáveis pelo trabalho da extração, tratamento e venda de produtos madeireiros e não madeireiros (óleos, artesanato e o látex). Cabe ao ICMBio, órgão federal, fiscalizar os processos.

“O fato do plano de manejo estar completamente envolvido com a Cooperativa melhorou muito a situação dos ribeirinhos dentro da FLONA, pois trouxe a sustentabilidade para o lugar. Hoje a FLONA tem a venda da sua madeira certificada e está entre as iniciativas mais bem sucedidas de manejo comunitário de recursos naturais em Unidade de Conservação federal ”, comenta Domingos dos Santos Rodrigues, chefe substituto da Floresta Nacional do Tapajós – ICMBio.

Captura de Tela 2016-06-22 às 17.22.42Essa área foi a segunda floresta nacional criada na região do oeste do Pará, ocupando os municípios de Belterra, Aveiro, Placas e Ruropólis, e está localizada entre o rio Tapajós e a BR-163 . Hoje, em todo o país, existem 75 unidades de conservação caracterizada como FLONA, que seguem as mesmas características de uso sustentável da terra. “É um centro de conservação e referência no estado, a FLONA do Tapajós já catalogou mais de 1500 pesquisas científicas e o seu potencial turístico é crescente”, afirma Domingos.

O rio Tapajós é a entrada principal para conhecer a FLONA. Hoje três comunidades, Jamaraquá, Maguari e São Domingos, estão estruturadas para receber turistas de todo o mundo, vindo principalmente do município de Santarém. Algumas famílias vivem exclusivamente do turismo, é o caso da Dona Nice que esteve por quatro anos à frente da associação dos comunitários da FLONA. Hoje, ela se dedica a receber os visitantes em sua própria casa, oferecendo redário, alimentação e passeios guiados. Na FLONA, o visitante pode fazer trilha pela mata e conhecer uma Samauma com mais de 50 metros de altura, mergulhar nos igarapés ou visitar as comunidades vizinhas, onde são feitos produtos artesanais do látex como bolsas, sapatos, colares e mantas. Porém, o turista deve respeitar algumas regras: não pode fazer fogueira, acampar em barracas, ouvir som alto na beira do igarapé e pernoitar sem um guia local.

“A parceria com o ICMBio é muito importante. Eles nos orientaram e nos capacitaram com temas sobre educação ambiental, turismo sustentável, manejo legal e conservação. Inclusive recebo um bolsa de 300 reais a cada trimestre por colaborar na conservação da floresta. É um incentivo que traz prazer e alegria de preservar o ambiente que a gente vive. Nossa comunidade se desenvolveu muito com o turismo e muitos comunitários entenderam o que é trabalhar de forma sustentável”, conta Dona Nice, mulher guerreira da mata que luta por sua comunidade dentro e fora dela.

Aparentemente a FLONA do Tapajós é um case de sucesso na área ambiental, porém muitos fatores externos ameaçam a conservação. Pelos moradores, a soja é o maior deles, pois toda a área do entorno está dominada por áreas de pasto e soja. A queimada também os preocupam, na época da seca, muitos focos se espalham pela mata. E, recentemente, o rio Tapajós se tornou a nova fronteira dos megaprojetos do governo federal. Há uma previsão de construção de 40 usinas na região amazônica, somente para o Tapajós são previstas cinco barragens. A usina hidroelétrica de São Luiz do Tapajós teve a licença ambiental da obra suspensa pelo o Ibama, apontando a inviabilidade do projeto sob a ótica do componente indígena.

Uma luta que envolve as comunidades tradicionais da região, órgãos públicos e a sociedade civil em defesa de uma das lugares mais conservadas do país.

Salve o Tapajós, salve o povo da floresta!

IMG_0704

A bordo do Tapajós

A navegação no rio não é fácil. Para atravessar as águas doces da região amazônica e chegar no destino final é preciso experiência e fé, segundo os pescadores. O vento e a correnteza do rio formam ondas, que nos confundem com o mar, bancos de areia também dificultam a passagem e, as vezes, é preciso abandonar o barco para desatola-lo. As entradas para as florestas, em sua grande maioria, são protegidas por igarapés, que durante o período da seca estão rasos e estreitos.

A viagem continua. O igarapé, então, começa a alargar e, sem se dar conta, aquele córrego cristalino se torna um volumoso braço de água, cercado por árvores de grande porte e espécies de vitórias-régias que anunciam a chegada em um paraíso.

É neste cenário onde está localizada a comunidade do Jamaraquá, à margem esquerda do Rio Tapajós, para quem chega por Santarém, e protegida pela Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós , no Pará.

IMG_0511
O comandante Paulo Ganv

 “Aqui é onde lavamos nossas almas. As pessoas que visitam esse lugar voltam transformadas, porque estamos na selva”. Paulo Ganv, também conhecido como Paulo do Norte por suas andanças pelo Brasil na década de 60 com o movimento hippie, apresenta o lugar, onde a força da natureza vive em harmonia e dá ritmo a população local.

A casa do seu Paulo é um barco verde e amarelo, com bancos extensos de proa a popa, lugar para pendurar a rede e até uma mini cozinha. Filtros dos sonhos e muitos amuletos estão espalhados pelo espaço. Ele conta que o barco ganhou mais uma guia com a gravação da frase ‘Deus por Nós’ em seu casco. Antes de qualquer saída do porto de Alter do Chão para a imensidão do rio, seu Paulo veste uma faixa entorno da cabeça e explica que o adorno lhe dá força e também o protege.

 Além de sua residência e meio de locomoção, seu Paulo usa o barco como instrumento para trabalhar com ecoturismo, levando grupos a conhecer as belezas socioambientais do rio Tapajós. A bandeira do Pará, já desgastada pela força do vento, está encravada no barco e precede as boas histórias do marujo de 62 anos, que fundou a ong Grupo Ambiental Natureza Viva (Ganv), e dedica o seu tempo na proteção e defesa da floresta.

 “O objetivo da ong é levar informação para os povos ribeirinhos, indígenas e turistas que visitam nossa região. Também somos fiscalizadores e fazemos intervenções quando necessário. Nosso trabalho é livre e voluntário, mas precisamos que mais pessoas estejam engajadas para o crescimento dos projetos. Se a gente não cuidar dessa Amazônia, nos vamos perder o bioma mais rico do mundo. As construções das hidrelétricas e barragens, os desvios nos rios, o desalojamento das comunidades ribeirinhas e as queimadas são nossas maiores preocupações”, explica Paulo Ganv.

IMG_0878
Pôr do sol visto do igarapé da comunidade de Jamaraquá, em Belterra – PA.

 Atualmente, o turismo é umas das principais atividades dos povos ribeirinhos localizados no oeste do Pará e contribui para o desenvolvimento sustentável dentro das unidades de conservação. A construção da primeira hidrelétrica na região do Tapajós é um projeto real. As barragens previstas ameaçam esse ambiente sensível, que já enfrenta problemas com a expansão da soja e as queimadas, além de ser um risco à saúde e bem-estar das  comunidades tradicionais. Para se ter uma ideia do potencial da floresta, em 2015, a FLONA Tapajós recebeu mais de 30 mil turistas e é um dos principais produtores de matérias-primas e ciência do mundo.

No próximo post, vamos falar sobre o empreendedorismo verde dentro da Floresta Nacional do Tapajós.