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A bordo do Tapajós

A navegação no rio não é fácil. Para atravessar as águas doces da região amazônica e chegar no destino final é preciso experiência e fé, segundo os pescadores. O vento e a correnteza do rio formam ondas, que nos confundem com o mar, bancos de areia também dificultam a passagem e, as vezes, é preciso abandonar o barco para desatola-lo. As entradas para as florestas, em sua grande maioria, são protegidas por igarapés, que durante o período da seca estão rasos e estreitos.

A viagem continua. O igarapé, então, começa a alargar e, sem se dar conta, aquele córrego cristalino se torna um volumoso braço de água, cercado por árvores de grande porte e espécies de vitórias-régias que anunciam a chegada em um paraíso.

É neste cenário onde está localizada a comunidade do Jamaraquá, à margem esquerda do Rio Tapajós, para quem chega por Santarém, e protegida pela Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós , no Pará.

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O comandante Paulo Ganv

 “Aqui é onde lavamos nossas almas. As pessoas que visitam esse lugar voltam transformadas, porque estamos na selva”. Paulo Ganv, também conhecido como Paulo do Norte por suas andanças pelo Brasil na década de 60 com o movimento hippie, apresenta o lugar, onde a força da natureza vive em harmonia e dá ritmo a população local.

A casa do seu Paulo é um barco verde e amarelo, com bancos extensos de proa a popa, lugar para pendurar a rede e até uma mini cozinha. Filtros dos sonhos e muitos amuletos estão espalhados pelo espaço. Ele conta que o barco ganhou mais uma guia com a gravação da frase ‘Deus por Nós’ em seu casco. Antes de qualquer saída do porto de Alter do Chão para a imensidão do rio, seu Paulo veste uma faixa entorno da cabeça e explica que o adorno lhe dá força e também o protege.

 Além de sua residência e meio de locomoção, seu Paulo usa o barco como instrumento para trabalhar com ecoturismo, levando grupos a conhecer as belezas socioambientais do rio Tapajós. A bandeira do Pará, já desgastada pela força do vento, está encravada no barco e precede as boas histórias do marujo de 62 anos, que fundou a ong Grupo Ambiental Natureza Viva (Ganv), e dedica o seu tempo na proteção e defesa da floresta.

 “O objetivo da ong é levar informação para os povos ribeirinhos, indígenas e turistas que visitam nossa região. Também somos fiscalizadores e fazemos intervenções quando necessário. Nosso trabalho é livre e voluntário, mas precisamos que mais pessoas estejam engajadas para o crescimento dos projetos. Se a gente não cuidar dessa Amazônia, nos vamos perder o bioma mais rico do mundo. As construções das hidrelétricas e barragens, os desvios nos rios, o desalojamento das comunidades ribeirinhas e as queimadas são nossas maiores preocupações”, explica Paulo Ganv.

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Pôr do sol visto do igarapé da comunidade de Jamaraquá, em Belterra – PA.

 Atualmente, o turismo é umas das principais atividades dos povos ribeirinhos localizados no oeste do Pará e contribui para o desenvolvimento sustentável dentro das unidades de conservação. A construção da primeira hidrelétrica na região do Tapajós é um projeto real. As barragens previstas ameaçam esse ambiente sensível, que já enfrenta problemas com a expansão da soja e as queimadas, além de ser um risco à saúde e bem-estar das  comunidades tradicionais. Para se ter uma ideia do potencial da floresta, em 2015, a FLONA Tapajós recebeu mais de 30 mil turistas e é um dos principais produtores de matérias-primas e ciência do mundo.

No próximo post, vamos falar sobre o empreendedorismo verde dentro da Floresta Nacional do Tapajós.