Arquivo da categoria: Conservação

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O desfile das baleias jubarte pela costa brasileira

O seu nome científico é Megaptera novaeangliae e significa grandes asas. Porém é uma mamífero, que passa sua vida inteira circulando entre os mares do Planeta. Pode chegar a 16 metros de comprimento e pesar mais de 40 toneladas. Uma complexidade de características e hábitos em um só animal.

É época do desfile das baleias jubarte pela costa brasileira, os clicks das máquinas fotográficas não param. A cada dia mais registros das gigantes do mar nas redes sociais e uma circulação de informações importantes para a pesquisa científica.

“O mar estava sem onda, um espelho, encontramos 3 baleias jubarte e uma delas saltou a 40 metros do meu barco”, conta o ambientalista Julio Cardoso sobre o belo registro que fez durante a regata próxima ao arquipélago de Alcatrazes, entre São Sebastião e Ilhabela (SP).

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Foto: Julio Cardoso | A poucos metros do seu barco, o fotógrafo clicou o salto espetacular da jubarte.

“Nunca vi nada igual na minha vida. Está parecendo até uma ‘autopista de migração’ das baleias. Uma atrás da outra. Observamos que as baleias estão subindo em subgrupos de 3 a 4. Avistamos uma média de 60 indivíduos aqui no Rio de Janeiro em um dia de campo, mas acredito que o número seja maior. Tenho medo de dizer 100 e acharem que estou maluca”, brinca Liliane Lodi, pesquisadora do projeto Baleias e Golfinhos do Rio.

Estamos na época migratória das jubarte. Entre os meses do inverno rigoroso na Antártica, as baleias sobem em grupos para as águas mais quentes para se reproduzirem e darem cria. A principal parada delas no Atlântico Sul ocidental é o banco de Abrolhos, no litoral sul do estado da Bahia, o grande berçário reprodutivo da espécie.

As jubartes foram, por muito tempo, alvo da caça predatória no Brasil. O óleo extraído das baleias era usado na construção civil e na geração de energia elétrica de todo o mundo.

O que chama a atenção neste ano é o número de baleias jubarte subindo para o norte do país. Isso se dá, principalmente, pela recuperação nacional após o término e proibição da caça de baleia Jubarte, em 66, pela Comissão Internacional Baleeira (CIB).

A população de baleias-jubarte que habita a costa do Brasil* vem mostrando sinais claros de recuperação populacional desde a proibição da caça comercial em 1966. Estudos conduzidos em 2008 entre Natal (Rio Grande do Norte) e Cabo Frio (Rio de Janeiro), estimaram uma população de aproximadamente 17.700 indivíduos . “As jubartes saíram da lista de espécies ameaçadas de extinção, em 2014. Temos um desafio de aprender a conviver num mar cheio de baleias e dar continuidade ao trabalho de conservação da espécie ”, comenta a pesquisadora Liliane Lodi.

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Foto: Julio Cardoso | Regata Alcatrazes por Boreste Marinha do Brasil

Se está aumentando a população há também um aumento de conflito, por isso mais baleias são impactadas pela atividade humana. Há um maior número de colisão com embarcações e enredamento.

A pesquisadora Liliane Lodi desenvolve o trabalho de monitoramento de baleias e golfinhos na costa carioca. Ela conta que apesar das praias do Rio de Janeiro serem as mais badaladas do Brasil, pouca pesquisa científica marinha é realizada na região.

“Trabalhamos para descobrir e monitorar quais são as áreas de ocorrência das baleias e dos golfinhos. Essas informações precisam ser publicadas cientificamente”, explica a Liliane.

O projeto Baleias e os Golfinhos do Rio conta com o apoio do Programa Marinho, do WWF Brasil e do Programa Costa Atlântica, da SOS Mata Atlântica, que garantem as saídas de campo dos pesquisadores para monitoramento de diversas espécies de cetáceos. Uma ação importante, principalmente, para o levantamento de dados e definição das áreas com maiores necessidades de medidas de conservação.

Foto: Julio Cardoso
Foto: Julio Cardoso

A análise das informações podem também dar o respaldo para pensar em estratégias que amenizem o impacto da atividade humana no habitat das baleias durante a época migratória.

O grupo também conta com uma comunidade no Facebook, com mais de 4.600 membros, que tem importante participação no trabalho de monitoramento no Rio de Janeiro. Com as informações compartilhadas na plataforma, os pesquisadores produziram um mapa de avistagem e outro de frequência das principais espécies de cetáceos na costa.

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Frequência de avistagem: 152 registros de avistagens no Rio de Janeiro foram incluídos no grupo do Facebook desde outubro de 2013. Gráfico publicado dia 13 de maio de 2016. Fonte: Onde estão as Baleias e Golfinhos?

“A base de informação sobre as baleias vem com a participação da sociedade civil e de pesquisadores. A mobilização da população para trazer informações sobre as baleias, golfinhos, aves é fundamental no processo de conservação. Nossos parques devem ser abertos para visitação, com regras claras, e com o objetivo também de monitoramento”, comenta Julio Cardoso, ambientalista e parte do Conselho da ESEC Tupinambás, que há anos luta pela implantação do parque do arquipélago de Alcatrazes, em São Sebastião.

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Mapa de avistagem: 152 registros de avistagens no Rio de Janeiro foram incluídos no grupo do Facebook desde outubro de 2013. Gráfico publicado dia 20 de maio de 2016. Fonte: Onde estão as Baleias e Golfinhos?

Abrolhos se prepara para receber uma das temporadas mais especiais das baleias jubarte. No final da primavera, elas retornam para a Antártica, onde encontram sua principal fonte de alimento e recuperam a energia depois de uma longa e produtiva viagem….

13770302_1251583511520601_7776866939531697622_n* Estoque reprodutivo A.

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A floresta em pé e seus frutos

Do estudo científico, para o manejo sustentável de recursos naturais e a conservação, até chegar ao turismo. A Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós, localizada no oeste do estado do Pará, é um modelo de sucesso de Unidade de Conservação, referência no Brasil.

Entre os 527 mil hectares de floresta amazônica protegida pela FLONA, estão comunidades ribeirinhas envolvidas com o trabalho de base comunitária e indígenas do povo munduruku, que lutam pela legitimação de suas terras. Por enquanto, as três comunidades indígenas pertencem territorialmente a FLONA do Tapajós, assim que sancionada como Terra Indígena (TI) será uma área sobreposta a FLONA. A convivência entre os povos é respeitosa, os ribeirinhos levam os traços e histórias do povo mundukuru nos seus corpos. Eles respeitam o espaço e o modo de vida dos indígenas, que não trabalham com extração de recurso natural para fins comerciais.

Dentro de toda unidade de conservação deve haver uma plano de manejo, que é um documento produzido por meio de estudos e diagnósticos do meio físico, social e biológico. O objetivo é garantir a manutenção dos processos ecológicos e a conservação da biodiversidade local. Esse documento estabelece regras e normas para o uso das áreas, do manejo de recursos e prevê ações de cunho educacional, turístico e científico.

IMG_0981Na FLONA do Tapajós, o Plano de Manejo é gerido e está em processo de reformulação pela própria comunidade. Fator que desperta o sentimento de pertencimento pelo meio, cria apoderamento entre as pessoas e aumenta a autoestima de quem vive no lugar. Em 2003, foi criada a Cooperativa Mista Tapajós Verde, que inclui diversos líderes das vinte e cinco comunidades da Flona, e são responsáveis pelo trabalho da extração, tratamento e venda de produtos madeireiros e não madeireiros (óleos, artesanato e o látex). Cabe ao ICMBio, órgão federal, fiscalizar os processos.

“O fato do plano de manejo estar completamente envolvido com a Cooperativa melhorou muito a situação dos ribeirinhos dentro da FLONA, pois trouxe a sustentabilidade para o lugar. Hoje a FLONA tem a venda da sua madeira certificada e está entre as iniciativas mais bem sucedidas de manejo comunitário de recursos naturais em Unidade de Conservação federal ”, comenta Domingos dos Santos Rodrigues, chefe substituto da Floresta Nacional do Tapajós – ICMBio.

Captura de Tela 2016-06-22 às 17.22.42Essa área foi a segunda floresta nacional criada na região do oeste do Pará, ocupando os municípios de Belterra, Aveiro, Placas e Ruropólis, e está localizada entre o rio Tapajós e a BR-163 . Hoje, em todo o país, existem 75 unidades de conservação caracterizada como FLONA, que seguem as mesmas características de uso sustentável da terra. “É um centro de conservação e referência no estado, a FLONA do Tapajós já catalogou mais de 1500 pesquisas científicas e o seu potencial turístico é crescente”, afirma Domingos.

O rio Tapajós é a entrada principal para conhecer a FLONA. Hoje três comunidades, Jamaraquá, Maguari e São Domingos, estão estruturadas para receber turistas de todo o mundo, vindo principalmente do município de Santarém. Algumas famílias vivem exclusivamente do turismo, é o caso da Dona Nice que esteve por quatro anos à frente da associação dos comunitários da FLONA. Hoje, ela se dedica a receber os visitantes em sua própria casa, oferecendo redário, alimentação e passeios guiados. Na FLONA, o visitante pode fazer trilha pela mata e conhecer uma Samauma com mais de 50 metros de altura, mergulhar nos igarapés ou visitar as comunidades vizinhas, onde são feitos produtos artesanais do látex como bolsas, sapatos, colares e mantas. Porém, o turista deve respeitar algumas regras: não pode fazer fogueira, acampar em barracas, ouvir som alto na beira do igarapé e pernoitar sem um guia local.

“A parceria com o ICMBio é muito importante. Eles nos orientaram e nos capacitaram com temas sobre educação ambiental, turismo sustentável, manejo legal e conservação. Inclusive recebo um bolsa de 300 reais a cada trimestre por colaborar na conservação da floresta. É um incentivo que traz prazer e alegria de preservar o ambiente que a gente vive. Nossa comunidade se desenvolveu muito com o turismo e muitos comunitários entenderam o que é trabalhar de forma sustentável”, conta Dona Nice, mulher guerreira da mata que luta por sua comunidade dentro e fora dela.

Aparentemente a FLONA do Tapajós é um case de sucesso na área ambiental, porém muitos fatores externos ameaçam a conservação. Pelos moradores, a soja é o maior deles, pois toda a área do entorno está dominada por áreas de pasto e soja. A queimada também os preocupam, na época da seca, muitos focos se espalham pela mata. E, recentemente, o rio Tapajós se tornou a nova fronteira dos megaprojetos do governo federal. Há uma previsão de construção de 40 usinas na região amazônica, somente para o Tapajós são previstas cinco barragens. A usina hidroelétrica de São Luiz do Tapajós teve a licença ambiental da obra suspensa pelo o Ibama, apontando a inviabilidade do projeto sob a ótica do componente indígena.

Uma luta que envolve as comunidades tradicionais da região, órgãos públicos e a sociedade civil em defesa de uma das lugares mais conservadas do país.

Salve o Tapajós, salve o povo da floresta!

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A bordo do Tapajós

A navegação no rio não é fácil. Para atravessar as águas doces da região amazônica e chegar no destino final é preciso experiência e fé, segundo os pescadores. O vento e a correnteza do rio formam ondas, que nos confundem com o mar, bancos de areia também dificultam a passagem e, as vezes, é preciso abandonar o barco para desatola-lo. As entradas para as florestas, em sua grande maioria, são protegidas por igarapés, que durante o período da seca estão rasos e estreitos.

A viagem continua. O igarapé, então, começa a alargar e, sem se dar conta, aquele córrego cristalino se torna um volumoso braço de água, cercado por árvores de grande porte e espécies de vitórias-régias que anunciam a chegada em um paraíso.

É neste cenário onde está localizada a comunidade do Jamaraquá, à margem esquerda do Rio Tapajós, para quem chega por Santarém, e protegida pela Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós , no Pará.

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O comandante Paulo Ganv

 “Aqui é onde lavamos nossas almas. As pessoas que visitam esse lugar voltam transformadas, porque estamos na selva”. Paulo Ganv, também conhecido como Paulo do Norte por suas andanças pelo Brasil na década de 60 com o movimento hippie, apresenta o lugar, onde a força da natureza vive em harmonia e dá ritmo a população local.

A casa do seu Paulo é um barco verde e amarelo, com bancos extensos de proa a popa, lugar para pendurar a rede e até uma mini cozinha. Filtros dos sonhos e muitos amuletos estão espalhados pelo espaço. Ele conta que o barco ganhou mais uma guia com a gravação da frase ‘Deus por Nós’ em seu casco. Antes de qualquer saída do porto de Alter do Chão para a imensidão do rio, seu Paulo veste uma faixa entorno da cabeça e explica que o adorno lhe dá força e também o protege.

 Além de sua residência e meio de locomoção, seu Paulo usa o barco como instrumento para trabalhar com ecoturismo, levando grupos a conhecer as belezas socioambientais do rio Tapajós. A bandeira do Pará, já desgastada pela força do vento, está encravada no barco e precede as boas histórias do marujo de 62 anos, que fundou a ong Grupo Ambiental Natureza Viva (Ganv), e dedica o seu tempo na proteção e defesa da floresta.

 “O objetivo da ong é levar informação para os povos ribeirinhos, indígenas e turistas que visitam nossa região. Também somos fiscalizadores e fazemos intervenções quando necessário. Nosso trabalho é livre e voluntário, mas precisamos que mais pessoas estejam engajadas para o crescimento dos projetos. Se a gente não cuidar dessa Amazônia, nos vamos perder o bioma mais rico do mundo. As construções das hidrelétricas e barragens, os desvios nos rios, o desalojamento das comunidades ribeirinhas e as queimadas são nossas maiores preocupações”, explica Paulo Ganv.

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Pôr do sol visto do igarapé da comunidade de Jamaraquá, em Belterra – PA.

 Atualmente, o turismo é umas das principais atividades dos povos ribeirinhos localizados no oeste do Pará e contribui para o desenvolvimento sustentável dentro das unidades de conservação. A construção da primeira hidrelétrica na região do Tapajós é um projeto real. As barragens previstas ameaçam esse ambiente sensível, que já enfrenta problemas com a expansão da soja e as queimadas, além de ser um risco à saúde e bem-estar das  comunidades tradicionais. Para se ter uma ideia do potencial da floresta, em 2015, a FLONA Tapajós recebeu mais de 30 mil turistas e é um dos principais produtores de matérias-primas e ciência do mundo.

No próximo post, vamos falar sobre o empreendedorismo verde dentro da Floresta Nacional do Tapajós.

 

Foto: Isabela Rangel

Terras indígenas são as principais armazenadoras de carbono do mundo

O princípio de que os índios são os primeiros e naturais senhores da terra está na Constituição Federal de 1988. Essa é a fonte primária de seu direito. “Por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seu usos, costumes e tradições”, é a definição de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios segundo o artigo 231.

Foi estabelecido que as terras indígenas são bens da União, sendo reconhecidos aos índios a posse permanente e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Quando uma comunidade indígena está em determinada área nos moldes do artigo 231, o Estado deve delimitar e realizar a demarcação física dos seus limites. A Constituição estabeleceu o prazo no mês de outubro de 1993 a demarcação de cem por cento das Terras Indígenas em contexto nacional, porém o fato não ocorreu. Atualmente, as TIs encontram-se em diferentes situações jurídicas no Brasil. Os índios também enfrentam verdadeiras guerras na invasão de seus territórios por atividades de agropecuária, de mineração ou pelo extração da madeira.

As terra indígenas (TIs) representam 12,5% do território brasileiro e 21,2% do território da Amazônia Legal, segundo o IBGE. Os estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Estado do Maranhão fazem parte da Amazônia Legal e correspondem a mais da metade do território nacional.

A demarcação das terras indígenas e o reconhecimento como áreas protegidas pelo o Sistema de Unidades de Conservação (SNUC) são consequências da luta do movimento indigenista pelos seus direitos, da colaboração dos povos na conservação da biodiversidade e também pela importância da inclusão social indígena nas políticas públicas.

Segundo o Instituto Sócio Ambiental (ISA), as terras indígenas ocupam uma extensão de 111.401.207 hectares e integram à importantes corredores ecológicos, fundamentais em estratégias de conservação das florestas, manutenção da biodiversidade e desenvolvimento sustentável da Amazônia. Durante a Conferência das Partes (COP), em 2014, realizada em Lima, no Peru, organizações internacionais afirmaram que os povos indígenas da Amazônia estão entre os principais armazenadores de carbono no mundo.

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Terra indígena Apurinã do Igarapé Mucuim – Amazonas (Foto: Isabela Rangel)

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) estima que há 13 milhões de toneladas de carbono estocada nos mais de cem milhões de hectares de terras indígenas da Amazônia Legal. O carbono estocado neste bioma equivale a quinze anos de emissões globais.

A diminuição das TIs ou a perda dos territórios por queimadas, atividades agropecuárias ou de exploração de recursos naturais lançariam quantidades expressivas de gases de efeito estufa na atmosfera e aceleraria os problemas inerentes da elevação da temperatura da Terra.

Foto: Isabela Rangel

Saber indígena guarda o melhor da Amazônia

Longe de qualquer visão mercantilista, viver a experiência da imersão em comunidades indígenas despertam sentimentos e valores de comunhão, respeito e liberdade. Por começar na relação da comunidade com a terra, que é tida como um bem recebido pelos antepassados. Os povos indígenas têm a terra como um recurso natural onde todos que vivem na comunidade pescam, caçam, plantam e desfrutam desses produtos de forma coletiva.

Era uma manhã linda na Aldeia Boa Esperança, não me lembro se estávamos na segunda-feira, quarta ou sábado, isso pouco importa. O tempo da floresta se dá pelo nascer do sol ou pela estação da chuva que, de fato, muda a rotina do lugar. Um menino de estatura mediana, os índios da Amazônia não são altos, levava um tracajá na cabeça, espécie de quelônio dos rios amazônicos, e anuncia a fartura do almoço para os parentes. Com o sol a pino, crianças, jovens e adultos se organizavam em fila na casa onde servem o almoço, prontos para reporem suas energias.

Aldeia Boa Esperança, Lábrea - povo aprurinã
Aldeia Boa Esperança, Lábrea – povo aprurinã

Uma cena comum nas aldeias da Terra Indígena Apurinã do Igarapé Mucuim, localizada na região do Médio curso do Rio Purus, no estado do Amazonas. Eles vivem em um modelo conservacionista, utilizam os recursos em compatibilidade com o equilíbrio do ecossistema amazônico. Durante o verão, chove pouco, e as margens dos rios e lagos aumentam. Por isso, a vida dos cursos d’aguas estão concentradas em um espaço menor, facilitando a pesca. Também aproveita-se para plantar, já que o solo sofre um processo natural de fertilização, o qual fica rico em nutrientes propício para a agricultura de ciclo rápido. No inverno, quando as chuvas são abundantes, é o período da caça, da colheita da roça e das frutas. A relação homem e natureza é totalmente integrada e com alta consciência e percepção.

Provedores de serviços ambientais essenciais e dependentes diretamente da manutenção florestal, os povos indígenas da região podem ser tomados como os guardiões da floresta amazônica. O reconhecimento dos saberes indígenas e o fortalecimento desses povos são fundamentais para a sustentabilidade do clima mundial. No próximo post vamos falar sobre a importância da marcação e homologação das Terras Indígenas (TIs) que somam cem milhões de hectares na Amazônia Legal, e estocam 13 bilhões de toneladas de carbono, segundo o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

 

 

Daniel Caballero

Projeto promete trazer área de conservação para São Paulo

Mais uma vez, aquele naturalista viajante da cidade de São Paulo sai da sua casa, sem rumo, para encontrar os campos de Cerrado que restam. No século XVIII, quando São Paulo ainda era chamada por São Paulo dos Campos de Piratininga, não era difícil encontrar as flores delicadas e coloridas da Lantana ou o Araçá. As crianças dessa época se lambuzavam com a fruta da Guabiroba. O Alecrim do Campo era música para elas, afinal, quem não brincou ao som da cantiga “Alecrim, alecrim dourado que nasce no campo sem ser semeado”?

Daniel Caballero
Daniel Caballero

De fato era um ecossistema equilibrado. Já a viagem pitoresca do naturalista moderno questiona a paisagem durante toda a sua experiência, tentando encontrar o verde no meio do caos urbano. Onde está o nosso Cerrado, cadê o pau-santo, a língua-de-tucano, o morango silvestre? Nos poucos terrenos baldios e em algumas áreas protegidas por leis ambientais na cidade se observam as características de uma zona de transição de vegetação entre a Mata Atlântica e o Cerrado, característica da região.

Essa vegetação composta de uma flora muito rica em espécies diferentes foi a primeira a ser destruída, tanto pela facilidade de construção no terreno, em contraste com as densas florestas vizinhas, como pela falta de ‘beleza natural’. Infelizmente, essas plantas são consideradas mato pelo senso comum e foram sendo esquecidas, comenta Ricardo Cardim – biólogo mestre em Botânica.

Em parceria com a Votorantim, o botânico Ricardo Cardim está desenvolvendo um plano, que pretende resgatar a Mata Atlântica e o Cerrado para São Paulo através de projetos de paisagismo. Isso porque, mais de 90 por cento da vegetação encontrada na cidade tem origem estrangeira. É um contrassenso, sendo o Brasil o país mais rico em biodiversidade.

As principais causas para atual situação são a especulação imobiliária, o desconhecimentos das plantas nativas pela população e a procura por plantas ditas ornamentais. Essas seguem as modas internacionais de paisagismo gerando uma invasão biológica de plantas estrangeiras, que competem por recursos naturais e eliminam as plantas nativas. Segundo a ONU, as plantas invasoras é a maior causa de perda de biodiversidade do mundo.

IMG_7320“Esse problema seríssimo está levando as cidades a serem completamente insustentáveis. A gente vai ter que harmonizar a biodiversidade brasileira, a biodiversidade nativa regional com as cidades… É um caminho sem volta, precisamos apenas começar esse caminho. E baseado nisso a gente foi contratado para fazer uma consultoria para a Reserva Votorantim Legado das Águas, a fim de identificar as espécies com potencial ornamental da mata atlântica”, explica Cardim. Ele acredita que o paisagismo além de ser bonito deve ter função ecossistêmica, atuando como parte de uma vegetação natural.

A Reserva Votorantim Legado das Águas está localizada no Vale do Ribeira, sul do Estado de São Paulo, e atualmente preserva uma área de 31 mil hectares. Ela faz parte do maior contínuo de Mata Atlântica do país. Em linha reta, a reserva está a 60 quilômetros de distancia da cidade de São Paulo e tem a mesma altitude. A proximidade geográfica dos locais gera uma grande vantagem para o trabalho em questão. A Legado da Águas é semelhante em assinatura genética, em espécies, em composição ao que era a cidade de São Paulo há 400 anos. “Isso é maravilhoso, porque se você quer trazer a vegetação nativa para um lugar quanto mais local, melhor”, explica Ricardo Cardim.

O projeto, que também está sendo desenvolvido junto com a Bioflora e é financiado pela Votorantim, consiste na produção de mudas ornamentais da Mata Atlântica e do Cerrado em um viveiro dentro da Reserva Legado das Águas, que ainda está em fase de experimentação. Porém o objetivo principal do viveiro é o fornecimento de plantas nativas para paisagistas, arquitetos e pessoas que trabalham com verde. Ricardo Cardim explica que o mercado de plantas ornamentais é amador, focado em modas internacionais. E o grande potencial em produzir plantas com qualidade e estética esperado pelo mercado na Reserva Legado das Águas, com o selo de uma planta nativa regional que atende ao equilíbrio ecológico, é a expertise que se deve alcançar ao final do projeto.

“A novidade é que a Reserva Legado das Águas vai resgatar a mata nativa de volta para a cidade de São Paulo. O modo de encantar as pessoas é de elas entenderem que além de comprarem uma planta bonita, estão ajudando a salvar o meio ambiente. Elas estão fazendo da cidade delas um lugar melhor … Então é esse o objetivo, fazer uma conexão com o futuro do que era a cidade antigamente e do que ela é hoje”, finaliza Ricardo Cardim.

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Blog Guapuruvu é premiado com matéria sobre RPPN

Durante uma semana o Blog Guapuruvu acompanhou as palestras da Semana Abril de Jornalismo Ambiental, promovida pela equipe do Planeta Sustentável, na Editora Abril.

Cada participante do evento desenvolveu uma pauta sobre a temática ambiental e saiu a campo para produção. As melhores matérias foram selecionadas e nove jovens premiados com um workshop do fotógrafo Luciano Candisani na Reserva Legado da Águas, em Juquiá.

Assista ao vídeo, que foi premiado pelo Planeta Sustentável, produzido pela editora do Blog Guapuruvu, Isabela Rangel, sobre as Reservas Particulares do Patrimônio Natural. Vale lembrar que é uma matéria independente.

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As engenheiras do mar e o equilíbrio da vida

As tartarugas marinhas são animais que habitam, preferencialmente, os mares tropicais e subtropicais do nosso Planeta. Estima-se que elas existem há mais de 180 milhões de anos. Porém nos dias atuais apenas sete espécies sobreviveram, são elas: a tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricate), tartaruga-lora ou oliva (Lepidochelys olivacea), tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), tartaruga de Kemp (Lepidochelys kempii) tartaruga kikila (Natator depressus).

É fundamental a importância ecológica das tartarugas marinhas. Mesmo passando a maior parte do tempo em água e, por isso, são essenciais no equilíbrio da cadeia alimentar marinha como no controle da população de esponjas, medusas e algas, elas também exercem influencia na alimentação de animais terrestres e aves.

Falcões, gaivotas e fragatas se alimentam das recém-nascidas tartaruguinhas que caminham da praia para o mar logo que nascem. Para as raposas, quatis e lagartos os ovos das tartarugas são parte do cardápio. Isso porque as tartarugas, durante a temporada de nidificação, saem do mar e chegam nas praias para desovarem. Em uma única temporada, algumas espécies, como a tartaruga-de-pente, podem desovar até oito vezes.

Diversos lugares do mundo preservam suas praias e criam projetos pensando na conservação das diferentes espécies de tartarugas marinhas. Hoje seis, das sete que existem, estão catalogadas como “em perigo” ou vulneráveis” à extinção na lista da UICN – União Mundial para a Natureza. As causas para tal situação estão relacionadas com a pesca indiscriminada, a ocupação irregular do litoral, comércio ilegal de carne e ovos e poluição dos mares.

O Blog Guapuruvu conheceu projetos de sucesso, um na Costa Rica e outro no Brasil, que lutam pela conservação das tartarugas marinhas.

Captura de Tela 2015-01-29 às 15.20.44Na Costa Rica o projeto é desenvolvido dentro do Refúgio de Vida Silvestre Camaronal, na região de Guanacaste, onde as tartarugas da espécie lora ou oliva (Lepidochelys olivacea) são a maioria. Elas entram em temporada de nidificação entre os meses de agosto a novembro. O trabalho é apoiado pelo Ministério do Ambiente da Costa Rica e as funções desenvolvidas pela equipe são: a patrulha na praia, principalmente, durante a noite para reduzir o número de roubo dos ovos das tartarugas, pesquisa científica e o monitoramento do animal. A maioria dos ninhos encontrados é transferido para um viveiro construído pelo projeto, assim os ovos são mantidos de forma segura.

Outra curiosidade é que o projeto aceita voluntários para ajudarem no trabalho. Dentre as atividades propostas para os jovens estão a manutenção da sede, limpeza da praia, auxílio na patrulha, organização das informações do trabalho em campo e monitoramento da época de eclosão – quando os bebês nascem. Durante a temporada de nidificação é possível observar uma media de cinquenta tartarugas por noite. Todas elas são anilhadas. As informações sobre tamanho do animal e quantidade de ovos por ninho são coletadas para o monitoramento e pesquisa.

Hoje a tartaruga lora está criticamente em perigo de extinção (IUCN), essa espécie tem a população restrita ao Golfo do México, norte do Oceano Atlântico e Costa Rica, considera-se que apenas mil fêmeas estão em idade reprodutiva (fonte:TAMAR). A praia de Camaronal, onde está localizado o projeto, é a principal área de nidificação solitária da espécie na Costa Rica. Isso porque a tartaruga lora é a única que sai em grupo para desovar – o fenômeno se chama ‘Arribada’ – são mais de 400 tartarugas desovando simultaneamente por noite em pequenas praias do Atlântico.

No Brasil, o projeto TAMAR tem uma grande contribuição e reconhecimento na área. Porém outros projetos são desenvolvidos com excelência ao longo da costa brasileira, é o caso da ONG AMJUS (Associação de Meio Ambiente, Cultura e Justiça Social) localizada na praia de São Miguel do Gosto – Rio Grande do Norte. Uma região potencialmente rica em energia eólica, também é o lugar preferido no Brasil das tartarugas de pente (Eretmochelys imbricata), ameaçadas criticamente à extinção (lista IUCN).

Os monitores ambientais da ONG fiscalizam 25 quilômetros da costa do município durante o período de nidificação da tartaruga, que acontece entre os meses de novembro a junho, além do acompanhamento da eclosão dos ovos. As empresas Voltalia e Copel Renováveis, que estão construindo parques eólicos no município, recentemente apoiaram o projeto de conservação de tartarugas marinhas da ONG. Sem dúvida, foi um ganho. Hoje os dois jovens monitores ambientais, Renny Castro e Acassio Melo que foram voluntários, agora são remunerados e utilizam um quadriciclo para fazer a patrulha, tornando o trabalho mais eficiente. Atualmente o projeto já é referência para as cidades vizinhas, e contribui para as estatísticas do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

A tartaruga de pente é uma mantenedora da biodiversidade nos recifes de corais, pois se alimentam de grupos específicos de esponjas, permitindo que espécies raras se estabeleçam, competindo por espaço e nutrientes com sucesso. Em geral, as tartarugas são consideradas engenheiras do ecossistema pois cada uma delas leva e traz inúmeros nutrientes e energia vital à sobrevivência de outras formas de vida.

Porém ainda há muito o que se descobrir sobre os hábitos e a vida desse animal. Os projetos de conservação comentados nesta reportagem são fundamentais para a produção de pesquisa, coleta de informação e educação ambiental, além da preciosa funcionalidade de colaborar para o aumento da população das tartarugas marinhas.

“Um dia quero que meu filho diga que essa tartaruga aqui existe por causa do meu pai, que trabalhou na AMJUS a 30 anos atrás…” Renny de Castro (20), monitor ambiental da ONG AMJUS desde 2009.

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Brasil pode aumentar sua área de proteção marinha

Atualmente o Brasil conta com 62 Unidades de Conservação Marinhas ao logo de todo o seu territórios costeiro. Dos 3,6 milhões de quilômetros quadrados de águas oceânicas brasileiras, onde banhadas vivem cerca de 42 milhões de pessoas, apenas 55 mil quilômetros quadrados estão preservados. Isso representa 1,57% do território que é considerado a Amazônia Azul.

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Além da falta de conscientização sobre a necessidade de preservar o ecossistema marinho, tanto por parte dos órgãos públicos como da população, a existência dessas unidades de conservação não assegura a proteção efetiva dos seus recursos naturais.

Isso porque a falta de recursos financeiros para a manutenção do meio ambiente é uma realidade no Brasil. É simples analisar essa argumentação quando conversamos com gestores dessas unidades. Em visita ao Arquipélago de Alcatrazes – em São Sebastião – percebemos a carência financeira e de infra estrutura de uma equipe que luta há anos para que a área se torne uma Parque Nacional Marinho, permitindo a visitação pública controlada e o turismo ecológico, ambos aliados importantes para a fiscalização da pesca ilegal na região.

Alcatrazes | Foto: Isabela Rangel

Entretanto uma novidade, que chega junto com a primavera deste ano, floreou também as esperanças dos ambientalistas e amantes do mar. O Ministério do Meio Ambiente anunciou a assinatura de um contrato com o Banco Mundial e o Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) para investir R$ 127 milhões na criação e ampliação de áreas marinhas protegidas (AMPs)

A importância dessas unidades de conservação é fundamental para a manutenção dos estoques pesqueiros do entorno e da biodiversidade. Isso porque proteger as espécies de peixes em seus locais de reprodução é a estratégia mais eficiente para a recuperação da população do animal. Porém os conflitos de interesse econômicos, a falta de engajamento da sociedade civil e a ausência de governança costeira e marinha refletem o atual contexto e situação das áreas marinhas protegidas brasileiras.

O investimento também chega em ótimo momento para o país, já que o Brasil é signatário do compromisso internacional das Metas de Biodiversidade de Aichi – cujos os objetivos foram incorporados na forma de metas nacionais para a preservação dos ecossistemas. E, curiosamente, um desses objetivos estabelecidos pelo programa é a preservação de 10% das água oceânicas brasileira até 2020.

Mas para alcançar os dez por cento deve-se pensar que aumentar a quantidade e a cobertura de áreas protegidas não bastam. O desafio é também implementar e melhorar aquelas que já existem, fornecendo subsídios para uma fiscalização efetiva, meios para o desenvolvimento de pesquisa e planos de manejo.

Tanquã

A luta pela preservação do Tanquã – Pantanal Paulista

O Estado de São Paulo e suas riquezas naturais…. Imagine um lugar onde pássaros de pernas longas tais como tuiuiú, colhereiro e frango d’água azul caminham sobre campos alagados como no Pantanal. Ou, então, neste mesmo lugar onde o voo do gavião-caboclo se harmoniza com delicado rufar de asas do pequeno tricolino. E mais, uma comunidade tradicional que vive da pesca e com a simplicidade característica de um estilo de vida caiçara nas margens do Rio Piracicaba. Esse lugar se chama Tanquã, e está localizado na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo.

Por ambientalistas, amantes da natureza e pela comunidade local o Tanquã é considerado um paraíso ecológico, mas para o crescimento irresponsável ele é apenas um entrave na  ampliação da Hidrovia Tiête–Paraná. Em 2012 o departamento hidroviário propôs construir uma barragem no município de Santa Maria da Serra para tornar o Rio Piracicaba navegável neste trecho. Seriam 45 quilômetros ligando a atual hidrovia até o Porto de Artemisque, e isso acarretaria no Tanquã totalmente alagado, perdendo suas características ecológicas que atraem aves, fomenta a pesca e a economia local, e equilibra um ecossistema praticamente extinto no Estado. 

Além desses fatores de pressão mais um incomoda os amantes do lugar, pois o Tanquã está numa região onde a agropecuária é predominante. Importantes fazendas, como a Fazenda Bacury e a Barreiro Rico, preservam áreas de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado, que juntos com o Tanquã, formam um corredor ecológico onde os ecossistemas se completam. Sempre lembrando que esses corredores ecológicos elevam a qualidade ambiental significativamente, pois criam condições muito mais favoráveis para o desenvolvimento de diversas espécies da fauna e da flora.

Nas últimas semanas o Brasil foi informado que a taxa de desmatamento está aumentando e a Mata Atlântica já perdeu mais de 90% da vegetação original. Como podemos aceitar que um empreendimento estadual, com financiamento federal, pode degradar ainda mais os próprios recursos naturais? Onde está o desenvolvimento sustentável que assegura a qualidade e disponibilidade dos recursos naturais para essa e as futuras gerações? O resultado dessa obra seria apenas para a navegação de 45 quilômetros e acarretaria, como vimos, na destruição de mais um fragmento preservado.  

“Não há a menor possibilidade de compensação adequada nesta área. As compensações propostas são irrelevantes e insuficientes. A proposta é compensar em uma área chamada Curva do Samambaia que tem dimensões muito inferiores ao Tanquã e uma água poluidíssima”, explica Luciano Monferrari – um dos ativistas que luta pela preservação do Tanquã.

Monferrari faz parte do Centro de Estudos Ornitológicos (CEO) que foi responsável pelo levantamento de avifauna do Tanquã. Segundo o relatório que produziram existem 90 espécies associadas ao ambiente aquático, entre elas 16 constam na lista de espécies ameaçadas de extinção. Há também 17 espécies de aves migratórias, sendo 4 provenientes do hemisfério sul e 13 provenientes do hemisfério norte. Em 2011, mais uma vez comprovando sua importância biológica, a região entrou no Censo Neotropical de Aves Aquáticas – no qual os dados são compilados e passados a um órgão internacional para controle desta população. Neste censo foram registradas 26 espécies de aves aquáticas ameaçadas no estado de São Paulo, 02 ameaçadas a nível Nacional e 03 ameaçadas a nível Global.

Toda essa biodiversidade só é possível pela formação caracterizada por lagos rasos na baixa do rio Piracicaba, o que facilita o processo migratório, pois as aves encontram fartura de alimentação, local para pouso, descanso e também para reprodução.

“Quando soube pela mídia a intenção de construir a hidrovia e suas consequências, procurei imediatamente algumas pessoas do CEO. Entramos com uma ação no Ministério Público e foi instaurado um Inquérito Civil, inicialmente para acompanhamento do processo. A defesa do Tanquã ganhou força com as audiências públicas, a participação da sociedade civil, também da presença entidades interessadas e de professores renomados de faculdades que emitiram pareceres muito importantes demonstrando a inviabilidade do empreendimento”, explica Moferrari, citando como começou essa luta.

Em um empreendimento como esse deve existir um estudo de impactos ambientais, pois com a construção da barragem o Tanquã seria eliminado. Um estudo desse tipo já foi feito, contudo vem ignorando todos os dados já registrados de biodiversidade e impacto social na região. Famílias que nasceram no Tanquã serão transferidas para outros locais, e a sensação que fica é como se estivessem realocando coisas em prateleiras. Vidas, identidades e ambientes nunca serão compensados. Os fatores são relevantes e devem ser considerados, além disso a sociedade civil tem o direito de saber o que será feito com cada uma das espécies, ameaçadas ou não de extinção, com cada pessoa que perderá seu espaço de direito,  cada qual com sua história de vida relacionada àquela região, uma vez que são muitas gerações que sempre viveram em harmonia com o ambiente.

Um grande aliado dessa luta são os observadores de pássaros. A atividade de birdwatching vem crescendo muito no Brasil e um dos importantes locais para a observação é o Tanquã.

Tanquã

“Hoje já é um ponto de observação de aves consolidado, com a presença quase que diária de observadores. A própria comunidade local já começa a observar mais as aves e consequentemente protegê-las. Impressionante como surgem novas descobertas de aves à medida que aumenta o número de observadores”, conta Monferrari.

Além da divulgação de informações importantes para estudos ornitológicos, há também o envolvimento dessas pessoas pelo o lugar, como defensores da região. Por isso as ações para a preservação do Tanquã chegam de diversas esferas da sociedade que se interessam pelo assunto. O Avistar, a maior feira do Brasil focada no tema observação de aves, é um exemplo dos grandes disseminadores de temas específicos como este.

Hoje o Ministério Público recomenda a não liberação desta licença para a construção da Barragem sem que atendam a todos os questionamentos da sociedade civil e dos pareceres técnicos apresentados nas audiências.

A luta pelo Tanquã continua. Todas as pessoas envolvidas querem alternativas para essa construção. O desenvolvimento é necessário mas deve ser pensado de forma responsável e que respeite as vidas que dependem daquele lugar.

O que se espera para o futuro é que aves possam chegar e voltar para aquele lugar tranquilamente. Que a saña-amarela e a capororoca, consideradas os primeiros registros para o estado de São Paulo, desafiem os observadores a cada ida. E que a comunidade se beneficie com o turismo de bridwatching e com a preservação dos recursos naturais.

O Tanquã de hoje… É o Tanquã pra sempre!