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Blog Guapuruvu é premiado com matéria sobre RPPN

Durante uma semana o Blog Guapuruvu acompanhou as palestras da Semana Abril de Jornalismo Ambiental, promovida pela equipe do Planeta Sustentável, na Editora Abril.

Cada participante do evento desenvolveu uma pauta sobre a temática ambiental e saiu a campo para produção. As melhores matérias foram selecionadas e nove jovens premiados com um workshop do fotógrafo Luciano Candisani na Reserva Legado da Águas, em Juquiá.

Assista ao vídeo, que foi premiado pelo Planeta Sustentável, produzido pela editora do Blog Guapuruvu, Isabela Rangel, sobre as Reservas Particulares do Patrimônio Natural. Vale lembrar que é uma matéria independente.

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As engenheiras do mar e o equilíbrio da vida

As tartarugas marinhas são animais que habitam, preferencialmente, os mares tropicais e subtropicais do nosso Planeta. Estima-se que elas existem há mais de 180 milhões de anos. Porém nos dias atuais apenas sete espécies sobreviveram, são elas: a tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricate), tartaruga-lora ou oliva (Lepidochelys olivacea), tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), tartaruga de Kemp (Lepidochelys kempii) tartaruga kikila (Natator depressus).

É fundamental a importância ecológica das tartarugas marinhas. Mesmo passando a maior parte do tempo em água e, por isso, são essenciais no equilíbrio da cadeia alimentar marinha como no controle da população de esponjas, medusas e algas, elas também exercem influencia na alimentação de animais terrestres e aves.

Falcões, gaivotas e fragatas se alimentam das recém-nascidas tartaruguinhas que caminham da praia para o mar logo que nascem. Para as raposas, quatis e lagartos os ovos das tartarugas são parte do cardápio. Isso porque as tartarugas, durante a temporada de nidificação, saem do mar e chegam nas praias para desovarem. Em uma única temporada, algumas espécies, como a tartaruga-de-pente, podem desovar até oito vezes.

Diversos lugares do mundo preservam suas praias e criam projetos pensando na conservação das diferentes espécies de tartarugas marinhas. Hoje seis, das sete que existem, estão catalogadas como “em perigo” ou vulneráveis” à extinção na lista da UICN – União Mundial para a Natureza. As causas para tal situação estão relacionadas com a pesca indiscriminada, a ocupação irregular do litoral, comércio ilegal de carne e ovos e poluição dos mares.

O Blog Guapuruvu conheceu projetos de sucesso, um na Costa Rica e outro no Brasil, que lutam pela conservação das tartarugas marinhas.

Captura de Tela 2015-01-29 às 15.20.44Na Costa Rica o projeto é desenvolvido dentro do Refúgio de Vida Silvestre Camaronal, na região de Guanacaste, onde as tartarugas da espécie lora ou oliva (Lepidochelys olivacea) são a maioria. Elas entram em temporada de nidificação entre os meses de agosto a novembro. O trabalho é apoiado pelo Ministério do Ambiente da Costa Rica e as funções desenvolvidas pela equipe são: a patrulha na praia, principalmente, durante a noite para reduzir o número de roubo dos ovos das tartarugas, pesquisa científica e o monitoramento do animal. A maioria dos ninhos encontrados é transferido para um viveiro construído pelo projeto, assim os ovos são mantidos de forma segura.

Outra curiosidade é que o projeto aceita voluntários para ajudarem no trabalho. Dentre as atividades propostas para os jovens estão a manutenção da sede, limpeza da praia, auxílio na patrulha, organização das informações do trabalho em campo e monitoramento da época de eclosão – quando os bebês nascem. Durante a temporada de nidificação é possível observar uma media de cinquenta tartarugas por noite. Todas elas são anilhadas. As informações sobre tamanho do animal e quantidade de ovos por ninho são coletadas para o monitoramento e pesquisa.

Hoje a tartaruga lora está criticamente em perigo de extinção (IUCN), essa espécie tem a população restrita ao Golfo do México, norte do Oceano Atlântico e Costa Rica, considera-se que apenas mil fêmeas estão em idade reprodutiva (fonte:TAMAR). A praia de Camaronal, onde está localizado o projeto, é a principal área de nidificação solitária da espécie na Costa Rica. Isso porque a tartaruga lora é a única que sai em grupo para desovar – o fenômeno se chama ‘Arribada’ – são mais de 400 tartarugas desovando simultaneamente por noite em pequenas praias do Atlântico.

No Brasil, o projeto TAMAR tem uma grande contribuição e reconhecimento na área. Porém outros projetos são desenvolvidos com excelência ao longo da costa brasileira, é o caso da ONG AMJUS (Associação de Meio Ambiente, Cultura e Justiça Social) localizada na praia de São Miguel do Gosto – Rio Grande do Norte. Uma região potencialmente rica em energia eólica, também é o lugar preferido no Brasil das tartarugas de pente (Eretmochelys imbricata), ameaçadas criticamente à extinção (lista IUCN).

Os monitores ambientais da ONG fiscalizam 25 quilômetros da costa do município durante o período de nidificação da tartaruga, que acontece entre os meses de novembro a junho, além do acompanhamento da eclosão dos ovos. As empresas Voltalia e Copel Renováveis, que estão construindo parques eólicos no município, recentemente apoiaram o projeto de conservação de tartarugas marinhas da ONG. Sem dúvida, foi um ganho. Hoje os dois jovens monitores ambientais, Renny Castro e Acassio Melo que foram voluntários, agora são remunerados e utilizam um quadriciclo para fazer a patrulha, tornando o trabalho mais eficiente. Atualmente o projeto já é referência para as cidades vizinhas, e contribui para as estatísticas do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

A tartaruga de pente é uma mantenedora da biodiversidade nos recifes de corais, pois se alimentam de grupos específicos de esponjas, permitindo que espécies raras se estabeleçam, competindo por espaço e nutrientes com sucesso. Em geral, as tartarugas são consideradas engenheiras do ecossistema pois cada uma delas leva e traz inúmeros nutrientes e energia vital à sobrevivência de outras formas de vida.

Porém ainda há muito o que se descobrir sobre os hábitos e a vida desse animal. Os projetos de conservação comentados nesta reportagem são fundamentais para a produção de pesquisa, coleta de informação e educação ambiental, além da preciosa funcionalidade de colaborar para o aumento da população das tartarugas marinhas.

“Um dia quero que meu filho diga que essa tartaruga aqui existe por causa do meu pai, que trabalhou na AMJUS a 30 anos atrás…” Renny de Castro (20), monitor ambiental da ONG AMJUS desde 2009.

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Brasil pode aumentar sua área de proteção marinha

Atualmente o Brasil conta com 62 Unidades de Conservação Marinhas ao logo de todo o seu territórios costeiro. Dos 3,6 milhões de quilômetros quadrados de águas oceânicas brasileiras, onde banhadas vivem cerca de 42 milhões de pessoas, apenas 55 mil quilômetros quadrados estão preservados. Isso representa 1,57% do território que é considerado a Amazônia Azul.

AMAZONIA AZUL

Além da falta de conscientização sobre a necessidade de preservar o ecossistema marinho, tanto por parte dos órgãos públicos como da população, a existência dessas unidades de conservação não assegura a proteção efetiva dos seus recursos naturais.

Isso porque a falta de recursos financeiros para a manutenção do meio ambiente é uma realidade no Brasil. É simples analisar essa argumentação quando conversamos com gestores dessas unidades. Em visita ao Arquipélago de Alcatrazes – em São Sebastião – percebemos a carência financeira e de infra estrutura de uma equipe que luta há anos para que a área se torne uma Parque Nacional Marinho, permitindo a visitação pública controlada e o turismo ecológico, ambos aliados importantes para a fiscalização da pesca ilegal na região.

Alcatrazes | Foto: Isabela Rangel

Entretanto uma novidade, que chega junto com a primavera deste ano, floreou também as esperanças dos ambientalistas e amantes do mar. O Ministério do Meio Ambiente anunciou a assinatura de um contrato com o Banco Mundial e o Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) para investir R$ 127 milhões na criação e ampliação de áreas marinhas protegidas (AMPs)

A importância dessas unidades de conservação é fundamental para a manutenção dos estoques pesqueiros do entorno e da biodiversidade. Isso porque proteger as espécies de peixes em seus locais de reprodução é a estratégia mais eficiente para a recuperação da população do animal. Porém os conflitos de interesse econômicos, a falta de engajamento da sociedade civil e a ausência de governança costeira e marinha refletem o atual contexto e situação das áreas marinhas protegidas brasileiras.

O investimento também chega em ótimo momento para o país, já que o Brasil é signatário do compromisso internacional das Metas de Biodiversidade de Aichi – cujos os objetivos foram incorporados na forma de metas nacionais para a preservação dos ecossistemas. E, curiosamente, um desses objetivos estabelecidos pelo programa é a preservação de 10% das água oceânicas brasileira até 2020.

Mas para alcançar os dez por cento deve-se pensar que aumentar a quantidade e a cobertura de áreas protegidas não bastam. O desafio é também implementar e melhorar aquelas que já existem, fornecendo subsídios para uma fiscalização efetiva, meios para o desenvolvimento de pesquisa e planos de manejo.

livro “Ka’á-eté”, de Octavio Campos Salles

Livro retrata a Mata Atlântica intocada

Era mais um noite de autógrafos na charmosa Livraria da Vila, em São Paulo. Porém, tanto o livro quanto o autor traziam para aquele ambiente, repleto de obras literárias, um tom verde. Em algum momento da noite aquela cor se revelava intensa, mas para que isso fosse notado era preciso folhear as páginas do livro Ka’á-eté, de Octavio Campos Salles.

:Livraria da VilaSem dúvida era uma noite especial. O primeiro livro é um fato muito importante na carreira de um fotógrafo.  Há cinco anos Octavio se dedica a fotografar regiões de floresta primária da Mata Altlânica. Daí vem o nome do livro Ka’á-eté, que significa floresta verdadeira. Essa era a forma como os indígenas, antes do descobrimento do Brasil, se referiam a floresta que nunca havia sido explorada.

Octavio Campos Salles - Foto: Isabela Rangel

Toda a temática do livro é voltada a essa Mata Atlântica intocada que ainda existe, apesar das constantes transformações do mundo, ela permanece aqui lutando para se manter em pé. As páginas da obra retratam espécies de animais como a anta, o macuco, a jacutinga e a onça que já foram extintas de outras regiões  desse mesmo Bioma.

Você deve estar se perguntando: –  mas onde é esse lugar, se resta apenas oito por cento de Mata Atlântica? Pois é, mais de 80% das fotos foram tiradas na RPPN Parque do Zizo, uma área particular protegida que está localizada na Serra de Paranabiacaba, entre os municípios de São Miguel Arcanjo e Tapiraí – no estado de São Paulo.

Octavio é um assíduo frequentador do Parque do Zizo e ele conta que o livro só existe porque ele começou a visitar essa região para guiar grupos de pessoas que gostavam de fazer birdwatching e contemplar a natureza.

Através de Jatobás, da delicadeza das orquídeas, de paisagens naturais, diversos pássaros, borboletas, espécies de mamíferos, anfíbios e répteis o livro não só representa a conservação da floresta, como também conta a história da ocupação, alertando para a importância da preservação de uma dos biomas mais ameaçados do mundo.  Octavio Campos Salles também está usufruindo do livro como um instrumento de educação ambiental, oferecendo palestras para jovens e estudantes.

Octavio Campos Salles - Foto: Isabela Rangel

O livro Ka’á-eté já está a venda em São Paulo e também através do site www.kaaete.com.br. O projeto “Ka’á-eté” é uma realização da TIJD Produções Artísticas, do empresário e amigo Guto Carvalho.

Veja uma galeria de fotos do livro “Ka’á-eté” de Octavio Campos Salles

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A luta pela preservação do Tanquã – Pantanal Paulista

O Estado de São Paulo e suas riquezas naturais…. Imagine um lugar onde pássaros de pernas longas tais como tuiuiú, colhereiro e frango d’água azul caminham sobre campos alagados como no Pantanal. Ou, então, neste mesmo lugar onde o voo do gavião-caboclo se harmoniza com delicado rufar de asas do pequeno tricolino. E mais, uma comunidade tradicional que vive da pesca e com a simplicidade característica de um estilo de vida caiçara nas margens do Rio Piracicaba. Esse lugar se chama Tanquã, e está localizado na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo.

Por ambientalistas, amantes da natureza e pela comunidade local o Tanquã é considerado um paraíso ecológico, mas para o crescimento irresponsável ele é apenas um entrave na  ampliação da Hidrovia Tiête–Paraná. Em 2012 o departamento hidroviário propôs construir uma barragem no município de Santa Maria da Serra para tornar o Rio Piracicaba navegável neste trecho. Seriam 45 quilômetros ligando a atual hidrovia até o Porto de Artemisque, e isso acarretaria no Tanquã totalmente alagado, perdendo suas características ecológicas que atraem aves, fomenta a pesca e a economia local, e equilibra um ecossistema praticamente extinto no Estado. 

Além desses fatores de pressão mais um incomoda os amantes do lugar, pois o Tanquã está numa região onde a agropecuária é predominante. Importantes fazendas, como a Fazenda Bacury e a Barreiro Rico, preservam áreas de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado, que juntos com o Tanquã, formam um corredor ecológico onde os ecossistemas se completam. Sempre lembrando que esses corredores ecológicos elevam a qualidade ambiental significativamente, pois criam condições muito mais favoráveis para o desenvolvimento de diversas espécies da fauna e da flora.

Nas últimas semanas o Brasil foi informado que a taxa de desmatamento está aumentando e a Mata Atlântica já perdeu mais de 90% da vegetação original. Como podemos aceitar que um empreendimento estadual, com financiamento federal, pode degradar ainda mais os próprios recursos naturais? Onde está o desenvolvimento sustentável que assegura a qualidade e disponibilidade dos recursos naturais para essa e as futuras gerações? O resultado dessa obra seria apenas para a navegação de 45 quilômetros e acarretaria, como vimos, na destruição de mais um fragmento preservado.  

“Não há a menor possibilidade de compensação adequada nesta área. As compensações propostas são irrelevantes e insuficientes. A proposta é compensar em uma área chamada Curva do Samambaia que tem dimensões muito inferiores ao Tanquã e uma água poluidíssima”, explica Luciano Monferrari – um dos ativistas que luta pela preservação do Tanquã.

Monferrari faz parte do Centro de Estudos Ornitológicos (CEO) que foi responsável pelo levantamento de avifauna do Tanquã. Segundo o relatório que produziram existem 90 espécies associadas ao ambiente aquático, entre elas 16 constam na lista de espécies ameaçadas de extinção. Há também 17 espécies de aves migratórias, sendo 4 provenientes do hemisfério sul e 13 provenientes do hemisfério norte. Em 2011, mais uma vez comprovando sua importância biológica, a região entrou no Censo Neotropical de Aves Aquáticas – no qual os dados são compilados e passados a um órgão internacional para controle desta população. Neste censo foram registradas 26 espécies de aves aquáticas ameaçadas no estado de São Paulo, 02 ameaçadas a nível Nacional e 03 ameaçadas a nível Global.

Toda essa biodiversidade só é possível pela formação caracterizada por lagos rasos na baixa do rio Piracicaba, o que facilita o processo migratório, pois as aves encontram fartura de alimentação, local para pouso, descanso e também para reprodução.

“Quando soube pela mídia a intenção de construir a hidrovia e suas consequências, procurei imediatamente algumas pessoas do CEO. Entramos com uma ação no Ministério Público e foi instaurado um Inquérito Civil, inicialmente para acompanhamento do processo. A defesa do Tanquã ganhou força com as audiências públicas, a participação da sociedade civil, também da presença entidades interessadas e de professores renomados de faculdades que emitiram pareceres muito importantes demonstrando a inviabilidade do empreendimento”, explica Moferrari, citando como começou essa luta.

Em um empreendimento como esse deve existir um estudo de impactos ambientais, pois com a construção da barragem o Tanquã seria eliminado. Um estudo desse tipo já foi feito, contudo vem ignorando todos os dados já registrados de biodiversidade e impacto social na região. Famílias que nasceram no Tanquã serão transferidas para outros locais, e a sensação que fica é como se estivessem realocando coisas em prateleiras. Vidas, identidades e ambientes nunca serão compensados. Os fatores são relevantes e devem ser considerados, além disso a sociedade civil tem o direito de saber o que será feito com cada uma das espécies, ameaçadas ou não de extinção, com cada pessoa que perderá seu espaço de direito,  cada qual com sua história de vida relacionada àquela região, uma vez que são muitas gerações que sempre viveram em harmonia com o ambiente.

Um grande aliado dessa luta são os observadores de pássaros. A atividade de birdwatching vem crescendo muito no Brasil e um dos importantes locais para a observação é o Tanquã.

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“Hoje já é um ponto de observação de aves consolidado, com a presença quase que diária de observadores. A própria comunidade local já começa a observar mais as aves e consequentemente protegê-las. Impressionante como surgem novas descobertas de aves à medida que aumenta o número de observadores”, conta Monferrari.

Além da divulgação de informações importantes para estudos ornitológicos, há também o envolvimento dessas pessoas pelo o lugar, como defensores da região. Por isso as ações para a preservação do Tanquã chegam de diversas esferas da sociedade que se interessam pelo assunto. O Avistar, a maior feira do Brasil focada no tema observação de aves, é um exemplo dos grandes disseminadores de temas específicos como este.

Hoje o Ministério Público recomenda a não liberação desta licença para a construção da Barragem sem que atendam a todos os questionamentos da sociedade civil e dos pareceres técnicos apresentados nas audiências.

A luta pelo Tanquã continua. Todas as pessoas envolvidas querem alternativas para essa construção. O desenvolvimento é necessário mas deve ser pensado de forma responsável e que respeite as vidas que dependem daquele lugar.

O que se espera para o futuro é que aves possam chegar e voltar para aquele lugar tranquilamente. Que a saña-amarela e a capororoca, consideradas os primeiros registros para o estado de São Paulo, desafiem os observadores a cada ida. E que a comunidade se beneficie com o turismo de bridwatching e com a preservação dos recursos naturais.

O Tanquã de hoje… É o Tanquã pra sempre!

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Os benefícios das abelhas sem ferrão para o meio ambiente

Oitenta e oito por cento das plantas dependem de animais que façam a polinização. Entre os agentes naturais, as abelhas nativas (meliponas ou sem ferrão) são as principais polinizadoras.

 As meliponas, por exemplo, assumem um papel muito importante diante dessa situação já que se alimentam do pólen e néctar oferecidos pelas flores. Durante os voos, as abelhas, em um processo natural, realizam a polinização – transferência de um pólen de uma flor feminina para uma masculina – fundamental para a produção de sementes e frutos que garantem o desenvolvimento e sobrevivência da vegetação. A polinização cruzada é a mais importante para manter a variabilidade da vegetação.

A abelha nativa (melipona) tem um hábito diversificado de coleta de pólen. Ela obtém o material de várias espécies, consegue polinizar um número diversificado de flores e manter a biodiversidade do lugar onde está se alimentando.

O Estado do Rio de Janeiro criou um projeto chamado Mosaico Carioca, que tem como objetivo principal gerir de forma integrada os parque municipais, estaduais e federais através de um corredor verde. Essa ação envolve o plantio de espécies de arborização, reflorestamento e também a introdução de abelhas nativas.

Mapa CaracterizacaoPara ganhar forças, o projeto formou uma parceria com a Associação de Meliponicultores do Estado do Rio de Janeiro (AME-RIO) que introduziu colônias de jataís, iraís e mandançais – todas abelhas sem ferrão – em alguns corredores verdes. Além da essência da parceria em aumentar o número de polinizadores naturais nos parques para a conservação da Mata Atlântica, a ação também visa a multiplicação do conhecimento sobre as abelhas nativas para o desenvolvimento da educação ambiental à população. Alertando e conscientizando a sociedade sobre o desmatamento e as queimadas que prejudicam centenas de enxame de melíponas.

Foto | AME-RIO
Foto | AME-RIO

Entre beija flores, morcegos e outros polinizadores, as abelhas são consideradas as mais eficientes para a conservação do ecossistema.

Em contra partida elas dependem de flores para viver e comer, dependem de árvores para morar. Ou seja, para que os meliponíneos, nome científico das abelhas sem ferrão, sobrevivam e perpetuem a espécie é de extrema importância que as florestas estejam em pé. No Brasil, onde a Mata Atlântica – por exemplo – foi reduzida para oito por cento da formação original, as abelhas estão extremamente pressionadas.

Projetos como o Mosaico Carioca, do Rio de Janeiro, inspiram e trazem de volta a esperança da reintrodução dessas espécies nas nossas matas, no qual foram disseminada pelo desmatamento e introdução de uma abelha exótica dominante. Além disso, não dá para descartar a influência positiva da polinização natural na agricultura quanto ao beneficiamento da saúde do alimento e controle de pragas.

É através da educação ambiental, políticas públicas e divulgação da informação que as pessoas vão conhecer melhor a história do nosso país e buscar alternativas para reverter a situação atual de degradação dos biomas brasileiros.

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Conheça a história das abelhas nativas do Brasil

Entre as 20 mil espécies de abelhas já registradas no planeta, os meliponíneos são o foco deste post. O Blog Guapuruvu vai apresentar em uma série de reportagens sobre quem são essas abelhas e por que elas sofrem ameaça de extinção.

O termo meliponíneos pode ser entendido como espécies de abelhas nativas que são desprovidas de ferrão – também conhecidas como meliponas. Na verdade, o ferrão é atrofiado mas elas são capazes de se defender usando outras formas.

Mandaçaia - melipona encontrada ao longo da costa atlântica desde o Norte até o Sul
Mandaçaia – melipona encontrada ao longo da costa atlântica desde o Norte até o Sul

Apesar de pouco conhecida pela a população em geral o Brasil sempre teve as abelhas sem ferrão como produtoras de mel. O mel delas foi historicamente usado por muitas tribos indígenas como alimento e remédio, além de ser fonte de energia importante em longas caminhadas na busca por caça. Pelo o que se sabe os índios não criavam, apenas extraíam o mel das colônias.

Iraí -  uma espécie de meliponíneo bastante comum no Brasil
Iraí – uma espécie de meliponíneo bastante comum no Brasil

Por volta do século 18 os jesuítas trouxeram abelhas da Europa do tipo Apis para o Brasil. O objetivo era produzir cera para as velas – afinal eram muitas missas para catequizar as pessoas que viviam neste país. Além das colmeias, trouxeram também o conhecimento de como extrair cera e mel dessa espécie em particular.

 As Apis são se mostraram extremamente bem adaptáveis e conseguiram produzir, colhendo o néctar e o pólen das florestas brasileiras, em larga escala. Foi então que a produção de mel no Brasil começou apenas com abelhas europeias do gênero Apis e usando técnicas também daquele continente.

 Na década de 1950 pesquisadores da Unesp trouxeram para o interior de São Paulo algumas abelhas da África, também do tipo Apis, que tinham bastante produtividade. Operárias e algumas rainhas dessas abelhas escaparam do laboratório e, seguindo seus instintos de formar mais colmeias, cruzaram com outras abelhas do tipo Apis – ou seja, com as abelhas europeias. Desse hibridismo surgiu a abelha Apismelliferas ou africanizada, hoje a principal produtora de mel do Brasil e popularmente conhecida pelo o poderoso ferrão que possui.  

Apis Mellifera
Apis Mellifera

Essa mistura gerou um híbrido extremamente versátil, capaz de buscar alimento em inúmeras variedades de plantas, e de suportar temperaturas muito diferentes. Além disso, boas produtoras de mel, boas polinizadoras, mais resistentes a doenças que as europeias e com alta capacidade de adaptação aos diferentes tipos de ecossistemas brasileiros. Ou seja, as Apismelliferas predominaram no ambiente. E, como elas não reconhecem fronteiras que o homem criou, se espalharam por quase todo o continente americano.

Claro que esse evento trouxe um impacto bastante forte para as abelhas nativas (as sem ferrão), mas não se sabe biologicamente se algumas espécies de meliponíneos foram extintos, ou simplesmente expulsos de seu habitat natural. Lembrando que no século em que as Apisforam trazidas da Europa, ninguém pensava no impacto ambiental que a introdução de uma nova espécie no meio ambiente poderia causar; além das abelhas, foram trazidos também para o Brasil milhares de outros produtos sem essa preocupação, como por exemplo, diversas frutas e até o próprio gado.

Até hoje, toda a produção brasileira de mel para venda está centrada nas abelhas do tipo Apis, ou seja, na apicultura. Sendo assim, todos os dados registrados se referem à apicultura, já que o mel da abelha sem ferrão ainda é produzido artesanalmente e não é regulamentado para a venda. Por exemplo, o fato de o Brasil ser o quinto país do mundo em exportação, ou o décimo primeiro mais importante produtor mundial, ou que triplicou a produção e aumentou em cem vezes a exportação de mel, segundo o Instituto de Economia Agrícola.

 As abelhas sem ferrão são o grupo mais diversificado de abelhas sociais: são mais de 400 espécies conhecidas apenas da Argentina até o México, sem contar as da África, Ásia e parte da Austrália. Cada espécie é um pouco diferente, sendo que a grande maioria das abelhas não são sequer sociais (ou seja, não formam colônias, vivem solitárias como outros insetos). Mas vamos falar principalmente das criadas para produzir mel – e essas são sociais.

Uruçu - abelha melipona encontra no Nordeste e também na região amozônica
Uruçu – abelha melipona encontra no Nordeste e também na região amazônica

Elas são as principais polinizadoras das regiões tropicais. Como formam o ninho em geral em árvores e se alimentam do que tiram das flores, são muito dependentes da preservação da mata onde estão – e precisam ser criadas na região de origem.

A degradação do meio ambiente, principalmente o desmatamento, é a maior ameaça às abelhas. Elas necessitam de um ambiente contínuo para ter mais chance de encontrar outras abelhas da mesma espécie e que não sejam geneticamente parecidas. Por isso, a degradação das florestas – seja para vender madeira, plantar, criar gado ou alagar para uma hidroelétrica, por exemplo – tem impacto enorme na existência desses animais. Se a rainha cruzar apenas com os machos aparentados, a chance de nascerem machos estéreis é maior e a população tende a se extinguir por pobreza genética.

Jataí - melipona encontrada em todo o Brasil
Jataí – melipona encontrada em todo o Brasil

E, diferentemente da Apis, as melíponas não conseguem reconstituir uma colônia quando a sua é destruída, porque a rainha-mãe não consegue mais voar. As Apis formam aquele enxame, voam juntas para outro local e constroem a colmeia novamente. Já a colônia nativa costuma simplesmente morrer se a árvore em que está instalada é retirada.

O raio de atuação de cada colônia é relativamente pequeno, cerca de um quilometro, então elas precisam de um ambiente saudável, com todos os recursos de que necessitam. É um via de mão dupla elas são responsáveis por manter a saúde da natureza com a polinização e a floresta em pé oferece energia e vida para as abelhas melíponas. No próximo post vamos apresentar a importância das abelhas para a vida da floresta.

 

Barra do Mandira - foto: Isabela Rangel

RESEX do Mandira, um exemplo de comunidade sustentável

O município de Cananéia, localizado no Vale do Ribeira em São Paulo, pode ser considerado um lugar especial por diversos fatores. Historicamente foi a primeira vila do Brasil – sua posição geográfica oferecia conforto e segurança para os colonizadores que anos mais tarde iniciaram ali o ciclo do ouro. Biologicamente, a região possui uma grande diversidade de recursos naturais e hoje detêm o maior estuário preservado do estado de São Paulo. Do ponto de vista econômico tem uma função relevante em relação à pesca e aos serviços ambientais de proteção da linha costeira contra as turbulências marítimas. E, por fim, culturalmente, já que suas terras abrigam um dos principais remanescentes de quilombolas do Brasil.

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Mapa de Cananéia

Outro fator muito interessante, que vem na contramão do crescimento acelerado e irresponsável, é que atualmente Cananéia tem mais de 80% do seu território em áreas protegidas. Em tempos nos quais os discursos se fundamentam no conceito de que as unidades de conservação são responsáveis pelo pouco desenvolvimento da região, apresentamos a Reserva Extrativista (Resex) do Mandira – uma área protegida por lei federal de uso sustentável, que mostra como uma UC pode ser geradora de desenvolvimento local.

Apesar da RESEX ter sido criada no ano de 2002, os esforços relacionados à pesquisa da extração de recursos naturais e ao trabalho de mobilização da comunidade do Mandira começaram na década de 90. A unidade de conservação protege 1.177,80 hectares de mangue, que é formado pela característica geográfica da região onde a água do mar se encontra com a água dos rios – formando a água salobra – e proporciona a ocorrência de extensas áreas de manguezal, um dos ambientes mais ricos e importantes, por ser o grande berçário da vida marinha.

Estuário Barra do Mandira
Estuário Barra do Mandira

Nesse contexto o principal recurso da Mandira é a ostra, um molusco filtrador encontrado nas raízes das árvores do mangue e que se alimenta de nutrientes da água salobra. Na década de 70 a comunidade do Mandira, predominantemente negra, fazia a exploração do recurso de forma ilegal e predatória. As condições de trabalho eram extremamente precárias e eles sofriam com o racismo. Ainda não eram reconhecidos como quilombolas e, por isso, rotulados como uma comunidade negra que trabalhava no mangue. Não havia identidade dos moradores com o lugar, chegando até a sentirem vergonha do serviço desempenhado.

Ostra - foto: Isabela Rangel
Ostras nas raízes das árvores do mangue

Porém, a ideia de trabalho dentro do mangue se transforma com a chegada de um professor chamado Antônio Carlos Diegues, que discutiu o potencial da área para o desenvolvimento local e trouxe parceiros que pudessem ajudar na pesquisa e viabilidade de técnicas para a exploração da atividade. Então, eles perceberam que se a comunidade continuasse a exploração sem nenhum cuidado ou informação a ostra se esgotaria. E propuseram para o líder local, o senhor Chico Mandira, a ideia do manejo sustentável do molusco.

“Em 1995 fizemos pela primeira vez o experimento da construção de um tabuleiro de engorda, doado pelo Instituto de Pesca, no meio do mangue. Então a gente retirava as ostras que alcançavam um tamanho entre 5 a 10 centímetros da raiz do mangue e transportávamos para esse tabuleiro de madeira ou bambu instalado em um lugar plano. Logo a gente percebeu que a ostra do viveiro teve um crescimento mais rápido. A técnica deu certo e até hoje está aí”, explica Chico Mandira.

Chico - foto: Isabela Rangel
Chico Mandira

Vendo o resultado positivo, a comunidade aderiu a técnica. Foi a partir dessa mobilização social e da construção de novos viveiros que as leis sobre a exploração da ostra começaram a serem respeitadas. Um exemplo disso é quando durante o período de 18 de dezembro a 18 de fevereiro, que a ostra entra em fase de reprodução, sua exploração no mangue é proibida. Porém as ostras que estão nos viveiros servem como um estoque, o que permite a continuidade do trabalho, e assim, a comercialização do produto.

Viveiro de ostra - foto: Isabela Rangel
Viveiro de engorda da ostra

Nessa fase a comunidade já estava bastante engajada com a ideia do manejo sustentável, e decidiram criar uma Cooperativa dos Produtores de Ostra do Mandira. Essa foi a melhor estratégia para se fazer o escoamento da produção e assim comercializar o produto de forma justa.

“Nós vivemos durante anos nas mãos de atravessadores. Eles chegavam na comunidade, compravam a dúzia por um preço muito baixo e depois vendia por um valor de 70  a 80% mais caro do que o original. A gente conseguiu eliminar esse serviço ilegal com a cooperativa e a nossa ostra passou a ser valorizada em média de 300%”, conta Chico Mandira.

Diante dessa nova perspectiva, a qualidade de vida e auto-estima da comunidade melhorou muito. Estudos mostram que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Reserva Extrativista do Mandira está acima da média da região.

Em 2002, a comunidade foi reconhecida como quilombola e também foi criada a  Reserva Extrativista do Mandira, a primeira e única RESEX federal do estado de São Paulo. Nesse mesmo ano, o senhor Chico Mandira foi receber em Johannesburgo, na África do Sul, o prêmio Iniciativa Equatorial durante o encontro da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, na Rio +10.

Diante de todos os esforços de colaboradores e da família Mandira, hoje é possível ver um trabalho sustentado da comunidade que ampliou o manejo da ostra para o turismo ecológico – formando guias – para a culinária e o artesanato – revelando artistas e chefs de cozinha que brincam com a ostra montando pratos saborosos. A viagem até a Reserva é muito construtiva e está aberta para todos os interessados. É uma experiência única em conhecer um estuário tão grande e bem preservado no estado de São Paulo.

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Gostaria de agradecer a professora Wanda Maldonado, uma das pesquisadoras que participou da construção da história da Reserva Extrativista do Mandira, e que apresentou esse lugar tão sabiamente aos seus alunos.

“É um ambiente especial, cuidem disso”, Wanda Maldonado.

 

Cristalino Lodge

A Vitória da Floresta

vitória-da-riva-carvalho-premio-claudia-2010Isso começou como um sonho. Sonhava como  poderia conservar a floresta e ao mesmo tempo ter um negócio”, conta Vitória da Riva Carvalho – uma empreendedora que mudou o paradigma de que manter a floresta em pé significa prejuízo.

Essa história começa no coração do Brasil, Estado de Mato Grosso, o qual detém em seu território três importantes biomas do nosso país – Pantanal, Cerrado e Floresta Amazônica. Apesar da intensa atividade pecuária, que é um dos principais fatores de desmatamento daquela região, ainda é possível encontrar santuários da natureza que são protegidos por sonhadores e idealizadores como Dona Vitória.

Ela criou a Reserva Privada do Patrimônio Natural (RPPN) do Cristalino, no município de Alta Floresta, preservando uma área de 7 mil hectares de Floresta Amazônica, a qual está cercada pelo Parque Estadual Cristalino e por uma área da Força Aérea Brasileira. Como vimos em posts anteriores as propriedades particulares são fundamentais para a formação de corredores verdes e mosaicos que ajudam na conservação da biodiversidade de fauna e flora.

Vista aérea RPPN Cristalino

O Cristalino foi a primeira RPPN criada no estado de Mato Grosso, em 1997. Porém cinco anos antes – no início de 92 – Vitória investiu na construção do  Cristalino Lodge, um empreendimento inovador que trouxe para o  Brasil o primeiro hotel ecológico dentro dos padrões de sustentabilidade e turismo responsável.  Nesse período ninguém falava sobre ecoturismo no país, e estando muito à frente do seu tempo, Vitória foi a pioneira no setor.

A reserva verde somada com o hotel preserva 12 mil hectares de floresta e está dividida por diferentes funcionalidades. O Cristalino Lodge tem 30 quilômetros de trilhas voltadas para o turismo ecológico e ao esporte de aventura. Além disso, observadores de aves do mundo inteiro são atraídos principalmente pelas quase 600 espécies de pássaros já catalogadas no local, muitos deles endêmicos daquela região (só existem por lá). Enquanto isso, dentro da RPPN são desenvolvidos projetos de pesquisa, conservação e monitoramento, os quais são apoiados pela Fundação Cristalino – ONG que luta pela conservação da Floresta Amazônica –  sendo essa outra vertente do trabalho de Vitória.

Entardecer no alto da torre - Foto de Samuel Melim

Vitória explicou que a Fundação também promove atividades dentro da floresta, com crianças de 10 a 12 anos da rede pública de ensino, através do projeto Escola Amazônia. “Há crianças que moram lá e nunca entraram numa trilha, nunca viram a floresta apesar de estarem próximas a ela, por isso fazemos atividades dentro desse ambiente. O conhecimento é fundamental para a conservação,  a gente tem todo um trabalho de preservação, educação ambiental e pesquisa – os três eixos da sustentabilidade”.

Cristalino Lodge

Esse é um exemplo de como uma floresta em pé, junto com a vontade da sociedade civil em colaborar com o meio ambiente, pode render bons frutos e ser economicamente viável. O Cristalino Lodge colocou o Brasil no mapa dos hotéis ecologicamente corretos e trouxe para a população local da cidade de Alta Floresta um desenvolvimento socioeconômico relevante que impacta diretamente na qualidade de vida deles. Se no passado a cidade era conhecida apenas pela degradação ambiental proveniente do garimpo, pecuária e exploração de madeira, hoje ela é um dos pontos mais procurados nos roteiros ecoturísticos mundial.

A exploração de novas possibilidades em nome do amor pela natureza ou por algo que vai de encontro a um mundo melhor é o objetivo de algumas pessoas como Dona Vitória. Com exemplos como esse vemos que vale a pena lutar por algo em que se acredita.

Veja uma galeria de fotos da natureza que envolve o hotel Cristalino Lodge

 

Quem vai pagar essa conta?

Nesta semana acontece um dos três importantes eventos que vai construir o novo acordo climático global pós- 2020. O Grupo de Trabalho de Implementação da Plataforma de Durban se reúne em Genebra, Suiça, para fechar o primeiro rascunho da proposta de medidas de redução de gases de efeito estufa. O novo acordo deve ser publicado e colocado para consulta até 1º de maio de 2015.

O objetivo final dessas reuniões é apresentar um acordo único mundial, ainda em dezembro deste ano, na próxima Conferência das Partes (COP), em Paris, que pretende reduzir as emissões globais entre 40% a 70% até 2050. Há uma necessidade urgente de limitar a 2ºC o aumento médio de temperatura da Terra.

No primeiro dia de reunião, os países considerados ricos e países emergentes travaram uma discussão de colaboração e financiamento. A União Europeia (EU) diz que todos terão que se comprometer a fazer cortes de emissão, incluindo os países emergentes, uma vez que que a China é responsável por 25% da emissões globais. A EU pede também que esses países publiquem os seus compromissos, assim como é feito pelos países europeus, de forma que o documento seja acessível a todos. Já os governos de países considerados pobres, pedem garantias de que o texto dos países desenvolvidos incluam a necessidade de financiarem medidas que permitam uma conversão na emissão de gases de efeito estufa. A ONU estima que o mundo precisará de 100 bilhões de dólares até 2020 para o alcance do objetivo.

Essas discussões são válidas e importantes para a agenda mundial de meio ambiente. Porém, depois de mais de duas décadas de negociação, pouco ainda foi feito por esse documento, que deve substituir o Protocolo de Kyoto, único instrumento legal da Convenção. Pode-se perceber uma falta de vontade política dos países membros da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) para enfrentar os problemas provenientes da crise climática.

Por isso, o blog Guapuruvu listou projetos ambiciosos, na contramão da eficiência energética, a fim de alertar sobre os grandes desafios que os 196 países membros precisarão enfrentar para a constituição de um documento vigoroso e eficiente.

Atualmente há 14 projetos de energia suja planejados para as próximas décadas, que elevariam as emissões globais de CO2 a partir de combustíveis fósseis em 20% e, consequentemente, a temperatura da Terra poderia elevar em 5º ou até 6º C.

Fonte GreenpeaceCom a exploração do pré-sal ao longo da costa, o Brasil ocupa a sétima posição, entre os 14 projetos que mais emitem CO2 na lista divulgada pelo estudo do Greenpeace. A utilização desse recurso natural e esgotável deve contribuir para a emissão de 330 milhões de toneladas de CO2 por ano até 2020.

“Com um potencial abundante de geração renovável como eólica, solar e biomassa, o Brasil perde a chance de inovar e se posicionar como uma das economias mais sustentáveis e limpas do planeta”, explica Ricardo Baitelo, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil. “Infelizmente, o governo investe uma enormidade de recursos em uma exploração arriscada do ponto de vista técnico e altamente danosa para o clima”, completa Baitelo.

Deve-se pensar e discutir novas formas de consumo, que não sejam baseadas na matriz energética de combustíveis fósseis e plástico.  Ou então, em uma administração eficiente, que não deixe os campos de usinas eólicas parados por falta de rede de transmissão, como acontece em diversos estados brasileiros. Além de investir, também, em fontes renováveis e energias limpas com baixo impacto ambiental e social.

Conheça os 14 projetos de energias sujas :

 1 – China / Cinco províncias do noroeste da China planejam aumentar a produção de carvão por 620 milhões de toneladas em 2015 , gerando um adicional de 1.400 milhões de toneladas de CO2 por ano.

2 – Australia / Mineração a céu aberto em Collinsville – Em 2025, as exportações de carvão aumentaria para 408 milhões de toneladas por ano acima de níveis de 2011 , empurrando as emissões de CO2 associadas para 1.200 milhões de toneladas por ano, uma vez que o carvão é queimado. Até então, as emissões de CO2 causadas por exportações australianas de carvão seria três vezes maior que as emissões provenientes do uso de energia doméstica da Austrália.

3 – Ártico / Plataforma Kulluk da Shell em Kulluk – As companhias de petróleo planejam tirar proveito de derretimento do gelo marinho na região do Ártico, ambientalmente sensível, para produzirem até 8 milhões de barris por dia de óleo e gás. Se o plano tiver êxito , apesar de montagem obstáculos técnicos e enormes riscos ambientais , a perfuração acrescentaria 520 milhões de toneladas de CO2 por ano para as emissões globais até 2020.

4 – Iraque – nova produção vai entregar 1,9 milhão de barris de petróleo por dia em 2016 e 4,9 milhões de barris por dia até 2035, adicionando 420 milhões de toneladas de CO2 em 2020.

5 – Canada / Produção de petróleo das areias betuminosas em Alberta vai triplicar 1,5 – 4,5 milhões de barris por dia até 2035 , somando 706 milhões de toneladas de CO2 para as emissões globais por ano. Em 2020, a expansão areias betuminosas acrescentaria emissões anuais de 420 milhões de toneladas de CO2.

6 – Estados Unidos / Mineração em Wyoming – planeja exportar um adicional de 190 milhões de toneladas de carvão por ano, principalmente através do noroeste do Pacífico. Isto acrescentaria 420 milhões de toneladas de CO2 por ano para as emissões globais antes de 2020.

Fonte Greenpeace7 – Brasil – Pré Sal – o objetivo extrair até 4 milhões de barris de petróleo por dia do oceano brasileiro, adicionando 660 milhões de toneladas de CO2 para as emissões globais anuais até 2035.

8 – África – nova produção vai fornecer 64 bilhões de metros cúbicos de gás natural até 2015 e 250 bilhões de metros cúbicos até 2035 , somando 260 milhões de toneladas de CO2 em 2020.

9- Indonésia / Mineração de carvão no norte de Palangkaraya – planeja uma enorme expansão nas exportações de carvão da ilha de Kalimantan que acrescentaria 460 milhões de toneladas de CO2 por ano até 2020 , criando impactos ambientais desastrosas para a população local e as florestas tropicais.

10 – Estados Unidos – nova produção vai entregar 310 bilhões de metros cúbicos por ano de gás de xisto em 2035 , somando 280 milhões de toneladas de CO2 até 2020.

11 – Kazaquistão – nova produção no Mar Cáspio vai entregar 2,5 milhões de barris de petróleo por dia em 2025 , somando 290 milhões de toneladas de CO2 em 2020 .

12 – Golfo México – Planos para novas perfurações de petróleo em águas profundas iria produzir 2,1 milhões de barris de petróleo por dia em 2016 , somando 350 milhões de toneladas de emissões de CO2.

13 – Azerbaijão – nova produção no Mar Cáspio vai entregar 100 bilhões de metros cúbicos de gás natural até 2020 , somando 240 milhões de toneladas de emissões de CO2.

14 – Venezuela / Orinoco – Areias betuminosas – produção de 2,3 milhões de barris de novo petróleo por dia até 2035 , somando 190 milhões de toneladas de CO2 em 2020.

Para finalizar, você sabe quais serão as consequências do aumento da temperatura em até 5ºC?

- Morte da Floresta Amazônica.

- Morte das florestas boreais.

- Risco global de espécies ameaçadas de extinção.

- Acidificação dos oceanos, e consequentemente perda dos recifes de corais e biodiversidade marinha.

- Recuo dos glaciares e consequentemente a redução da disponibilidade de água em regiões secas da Ásia Central e América do Sul.

- A produção de  cereais na África deverá diminuir.

- Risco de 60% de eventual degelo da Groelândia.

- Risco de desintegração da Antártica Ocidental.

Sem dúvida, a pauta também deve discutir as novas formas de produção energética e de consumo. Um mundo que importa e exporta combustível fóssil terá a temperatura cada vez mais elevada, com maiores desastres ambientais e crises sociais, já que uma pequena parcela de pessoas ganha dinheiro a partir da exploração desses recursos e, ao mesmo tempo, gera subprodutos nocivos e com impacto em grande escala. Países ricos dependem dos recursos naturais de países pobres que, por sua vez, dependem da exploração para gerar riqueza.  Tudo está conectado.